quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

Conversa no FCL Salvador 7/8/2019

     O mal estar da civilização: racismo, segregação

e silenciamento.

Freud, em O mal estar na cultura aponta que “O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens.

E quando nosso corpo é destinado à destruição no relacionamento com os outros homens, como é o caso do racismo? Persistindo no mundo atual, se não subjugado e desapropriado, sob um manto de invisibilidade e silenciamento. Mbembe, em Crítica da razão negra descreve como, desde a plantação à colônia, o conceito de escravo se acaba por fundir com o de negro até se tornarem sobreponíveis. O racismo é o modelo legitimador da opressão e da exploração, ao serviço do capitalismo, o qual necessitava de pressupostos raciais para subsistir: “negro seria, portanto o codinome, a túnica com a qual os outros me disfarçaram e na qual me tentam encerrar”.

O significante negro, inventado pelos europeus para desumanizar o homem de África e torná-lo moeda/coisa para produzir além Atlântico, legou ao negro a falta de um nome próprio, desabonou-o de seu romance familiar e sua história. Excluído do campo das representações, encarna a lógica capitalista do corpo como puro objeto de gozo.  O conceito de “Negro”, idealizado pelo Ocidente como uma fábula plena de exotismo, refinada com elementos carnais de pulsão sexual e sensualidade, conduziu a um imaginário que tanto fascinava como originava repúdio e repulsa. O liberalismo econômico teve por base o comércio de escravos, responsável pelo desenvolvimento do capitalismo e pelo que hoje chamamos globalização. Neste contexto, o negro ocupou o papel de pura mercadoria. Por sua vez, infelizmente, o liberalismo político e o discurso sobre os direitos humanos, herdeiro do iluminismo, utilizam a escravidão como metáfora da condição humana em seu conjunto, assim apagando a existência do racismo sob a bandeira da igualdade e da fraternidade: trata-se de um discurso universalizante que, por isso mesmo, é incapaz de dar conta da diferença histórica sobre a qual se fundam as categorias “negro” e “raça”. Não se pode mais negar que é o olhar do colonizador que cria o negro, um olhar que não vê nada além de um corpo sobre o qual projeta todo tipo de ansiedade, e que se alimenta da sua própria ignorância.

Os fenômenos de segregação questionam o analista tanto por sua repetição, assim como pelas novas formas que vêm se exibindo, como o ódio do outro, visto como estrangeiro, de raça inferior, paraíba ou irracional.

Lacan conceitua o sujeito como representado pelo significante e enquanto respondendo às significações advindas do campo do Outro, constituindo-se como efeito da cadeia de significantes. O campo do Outro indica o programa subjetivo dos significantes do sujeito. Esse programa contém o conjunto de significantes que balizam o sujeito em sua história, seu desejo, seus ideais, fantasias inconscientes e imaginárias. A decisão do sujeito, diante do que foi programado pelo Outro a partir de um enigma que gira a chave de seu desejo, convoca sua singularidade e seu modo particular de gozo. Desde essa perspectiva – a objeção estrutural ao Outro - a psicanalise aposta que um sujeito é sempre singular e não faz conjunto, ao menos é isso que ensina Lacan, que existe um dizer que é único. Nesse sentido somos todos estrangeiros e quando tomamos o outro pela cor, sexo, diferenças e o inscrevemos na lógica segregativa, estamos na verdade com dificuldades em suportar a impotência da linguagem em inscrever a relação sexual.

Freud dizia que a segregação é anterior à fraternidade, ou seja, como manifestação do mal-estar na cultura, o racismo tem a ver com estrutura mesma do sujeito. A relação entre os semelhantes alude uma dicotomia, pois o fundamento de todo amor é narcísico e não existe amor entre irmãos sem a rejeição dos estrangeiros. Por conta desse fato que é sempre imaginável a união de alguns homens, sob a condição de deixar alguns outros de fora, para poder dirigir o ódio e a agressividade contra estes. Como diz Mbembe «ao reduzir o ser vivo a uma questão de aparência, de pele ou de cor, outorgando à pele e à cor o estatuto de uma ficção de cariz biológico, os mundos euro-americanos em particular fizeram do Negro e da raça duas versões de uma única e mesma figura, a da loucura codificada.» A homogeneização do mais de gozo regulada pelas leis de mercado capitalista promove a ausência de diferenças e exclui quem não se adequa.

Os ancestrais africanos não fazem uma oposição entre alma e corpo, entre vida e morte o que torna a necropolítica uma lógica ainda mais perversa, pois retira os modos honrados de morrer das pessoas negras herdeiras das percepções africanas da realidade. Não é aquela morte que permite seguir vivendo de outros modos, mas uma morte que aniquila, que extermina, que fere um povo inteiro.

Através da justiça, restituição e reparação, Mbembe propõe a descolonização mental da Europa. Um projeto comum e universal, de «reinvenção da comunidade.».

Para Mbembe, o atual mundo globalizado requereria uma crítica radical da raça, tanto política como ética, a partir da qual seria possível passar de uma afirmação da diferença para uma afirmação da comunidade humana. Valendo-se, sobretudo, de Fanon, e estendendo a questão do negro ao que o autor chama “novos condenados da terra”, Mbembe afirma que qualquer projeto efetivamente emancipador, nos dias de hoje, requer que o negro abandone o papel de vítima, por um lado, e que os colonizadores assumam a sua responsabilidade, de outro. Trata-se, segundo ele, de insistir na lógica da justiça: Enquanto persistir a ideia segundo a qual só se deve justiça aos seus e que existem raças e povos desiguais, e enquanto se continuar a fazer crer que a escravatura e o colonialismo foram grandes feitos da “civilização”, a temática da reparação continuará a ser mobilizada pelas vítimas históricas da expansão e brutalidade europeia no mundo.

O devir-negro do mundo: expressão que introduz a possibilidade de pensar outros sujeitos racializados - muçulmanos, por exemplo - como os “novos negros” do mundo contemporâneo, e que reforça a ideia de que a categoria negro não passa de uma ficção útil. Não humano ou sub-humano, e ainda, ameaça ao mundo dos “brancos” .

São diversas as formas de rejeitar a existência do gozo Outro, como segregar, calar, excluir e, inclusive, tentar torná-lo igual, o, através do mecanismo da assimilação – são todas práticas de racismo.

Lacan nos propõe, em Televisão, “deixar a esse Outro seu modo de gozo, eis o que só se poderia fazer não impondo o nosso, não o considerando um subdesenvolvido”.

Foi de certo modo a solidão vivida por Freud na contracorrente da maioria judaica que lhe permitiu inaugurar esse lugar solitário que é o do psicanalista e dar ouvidos à causa inconsciente do sofrimento humano. O destino da humanidade, para ele, depende do equilíbrio entre as reinvindicações do individuo e as exigências culturais. A proteção da comunidade dependeria da justiça e da regulação entre as relações humanas.

A proposta de uma análise é sair da uniformidade, do silenciamento, do mesmo gozo para todos. O discurso analítico propõe uma dimensão ética que é a dignidade e o respeito de um gozo diferente a cada um, levando ate o final de uma análise onde se possam destituir as identificações.

A psicanalise deve tratar a relação do sujeito com o mundo de modo a incluir a historia, encarar o corpo negro tombado pelas marcas da escravidão e da destruição, como fazendo-se responsável por esses antepassados que são os nossos.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O PSICANALISTA E A INSTITUIÇÃO

 o psicanalista e a instituição


O trabalho do psicanalista nas instituições, a partir do ensino de Jacques Lacan, não pode ser pensado apenas como uma prática técnica aplicada em contextos coletivos. Trata-se, antes, de uma posição ética sustentada por uma determinada concepção da psicanálise, do desejo do analista e da transmissão.

Dois textos fundamentais orientam essa discussão: o Ato de Fundação da Escola Freudiana de Paris, de 1964, e a Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Neles, Lacan formula a distinção entre extensão e intensão da psicanálise, articulando a relação entre a experiência singular da análise e sua inscrição institucional.

No Ato de Fundação, Lacan propõe a criação de uma Escola que não seja apenas uma associação de profissionais, mas um lugar de trabalho orientado pela causa analítica. Lacan afirma que a psicanálise só pode ser transmitida a partir da experiência do inconsciente e da elaboração produzida por aqueles que nela se implicam.

É nesse contexto que aparece a distinção entre psicanálise em extensão e psicanálise em intensão. A extensão diz respeito à presença da psicanálise no campo social: sua difusão, ensino, interlocução com outras disciplinas, atuação institucional e incidência na cultura. Refere-se ao movimento pelo qual a psicanálise ultrapassa o espaço estrito do consultório e passa a operar em hospitais, escolas, universidades, serviços públicos e dispositivos clínicos diversos.

Na formulação de Jacques Lacan, a “psicanálise em extensão” diz respeito à presença e incidência da psicanálise no laço social, na cultura, nas instituições e nos modos de subjetivação de uma época — em contraste com a “psicanálise em intensão”, que se refere à experiência analítica propriamente dita, isto é, ao tratamento e à formação do analista.

Quando Lacan afirma que “o analista deve estar à altura da subjetividade de sua época”, ele introduz uma exigência ética e clínica: o analista não pode operar apenas a partir de categorias cristalizadas ou de uma leitura histórica fixa do sujeito. Ele precisa reconhecer como o inconsciente se manifesta nas transformações contemporâneas do discurso, do desejo e do sofrimento psíquico.

Essa correlação entre psicanálise em extensão e a subjetividade da época pode ser pensada em dois eixos:

1)   As formas do mal-estar mudam historicamente.
O sintoma neurótico clássico descrito por Sigmund Freud coexistia com uma cultura marcada pela repressão e pela autoridade. Hoje, aparecem frequentemente formas ligadas ao excesso de gozo, à aceleração, à performance, ao consumo e à fragilidade dos laços simbólicos.

2)   O discurso social modifica a constituição subjetiva.
A ascensão da lógica capitalista, das redes digitais, da hiperexposição da imagem e da exigência de satisfação imediata altera a relação do sujeito com o desejo, o corpo e a falta. A função do analista exige leitura do contemporâneo.

Estar “à altura” não significa adaptar a psicanálise às modas culturais, mas conseguir escutar como o inconsciente fala através dos significantes da época. Isso implica compreender os novos modos de sofrimento: depressões, toxicomanias, compulsões, angústias difusas, identidades frágeis, fenômenos de segregação etc. Os fenômenos de segregação questionam o analista tanto por sua repetição, assim como pelas novas formas que vêm se exibindo, como o ódio do outro, visto como estrangeiro, de raça inferior, paraíba ou irracional.

Lacan conceitua o sujeito como representado pelo significante e enquanto respondendo às significações advindas do campo do Outro, constituindo-se como efeito da cadeia de significantes. O campo do Outro indica o programa subjetivo dos significantes do sujeito. Esse programa contém o conjunto de significantes que balizam o sujeito em sua história, seu desejo, seus ideais, fantasias inconscientes e imaginárias.

A decisão do sujeito, diante do que foi programado pelo Outro a partir de um enigma que gira a chave de seu desejo, convoca sua singularidade e seu modo particular de gozo. Desde essa perspectiva – a objeção estrutural ao Outro - a psicanalise aposta que um sujeito é sempre singular e não faz conjunto, ao menos é isso que ensina Lacan, que existe um dizer que é único. Nesse sentido somos todos estrangeiros e quando tomamos o outro pela cor, sexo, diferenças e o inscrevemos na lógica segregativa, estamos na verdade com dificuldades em suportar a impotência da linguagem em inscrever a relação sexual. Ou seja, queremos homogeneidade, impor nossa condição e apagar as diferenças. A homogeneização do mais de gozo regulada pelas leis de mercado capitalista promove a ausência de diferenças e exclui quem não se adequa. Foi de certo modo a solidão vivida por Freud na contracorrente da maioria judaica que lhe permitiu inaugurar esse lugar solitário que é o do psicanalista e dar ouvidos à causa inconsciente do sofrimento humano.

A psicanálise em extensão como intervenção.

Ela participa do debate sobre educação, política, ciência, sexualidade, gênero, violência e tecnologia, sustentando uma posição crítica diante dos discursos que reduzem o sujeito a objeto de gestão, diagnóstico ou desempenho.

Nesse sentido, a psicanálise em extensão é o campo onde se verifica se a psicanálise continua viva para seu tempo. Se o analista não lê a subjetividade contemporânea, sua prática tende a se tornar dogmática ou anacrônica. Mas, se acompanha as mutações do laço social sem abandonar a ética do desejo e da escuta do inconsciente, então ele pode sustentar uma clínica efetivamente orientada pelo sujeito de sua época.

Já a intensão concerne ao núcleo da experiência analítica propriamente dita: a formação do analista, a análise pessoal, o manejo da transferência e a produção do desejo do analista.

Essa distinção é decisiva para pensar o trabalho do psicanalista nas instituições. Se a extensão sem intensão corre o risco de reduzir a psicanálise a uma técnica adaptativa ou a um discurso psicológico entre outros, a intensão sem extensão pode enclausurar a experiência analítica em uma lógica elitista ou desligada do laço social.

Para Lacan, ambas são inseparáveis: a presença da psicanálise nas instituições só se sustenta quando vinculada à ética própria da experiência analítica.

O psicanalista, portanto, não ocupa na instituição o lugar de especialista que oferece respostas normativas ou protocolos universais. Sua função é introduzir uma escuta que considere a singularidade do sujeito diante dos modos de funcionamento institucional, frequentemente organizados por ideais de normalização, produtividade e avaliação.

 Em hospitais, escolas, serviços de saúde mental ou no jurídico por exemplo, o discurso institucional tende a operar pela generalização dos casos e pela objetivação do sofrimento. O analista, ao contrário, trabalha para fazer existir um lugar para a palavra singular e para aquilo que escapa à lógica classificatória.

Essa posição implica uma tensão constante. O analista participa da instituição, mas não pode identificar-se completamente com seus ideais. Seu trabalho consiste muitas vezes em sustentar um ponto de furo nos saberes estabelecidos, recolocando em cena a dimensão do sujeito do inconsciente.

Assim, a prática institucional da psicanálise intervém nas modalidades de circulação da palavra, nas relações de equipe, na leitura dos impasses e na maneira como o sofrimento é significado. Em outras palavras, o trabalho do psicanalista nas instituições depende menos de um saber técnico acumulado do que da posição subjetiva produzida em sua própria análise.

A partir disso, pode-se afirmar que o analista nas instituições ocupa uma função paradoxal. Ele está inserido em equipes, normas e políticas públicas, mas sua prática visa preservar algo da ordem do não-todo, da singularidade e do impossível de normatizar. Sua intervenção não busca completar a instituição nem torná-la plenamente eficiente; ao contrário, introduz uma dimensão crítica diante dos ideais totalizantes que frequentemente organizam os discursos institucionais.

A contribuição lacaniana permite, assim, pensar as instituições não apenas como locais de aplicação da psicanálise, mas como espaços onde se coloca continuamente a questão da transmissão, da ética e do desejo do analista.

A diferença entre extensão e intensão mostra que a presença da psicanálise no social só mantém sua especificidade quando permanece articulada à experiência singular do inconsciente. O desafio do psicanalista institucional consiste precisamente em sustentar essa articulação sem ceder nem à adaptação burocrática nem ao isolamento da prática analítica em relação ao mundo social.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Ética na formação do analista

 Espaço escola Arapiraca – março 2025

 Forum do campo lacaniano de Alagoas

 

Ética na formação do analista

Em seu Seminário 7 – A Ética da Psicanálise (1959-1960), Lacan discute a ética não como um conjunto de normas morais, mas como um compromisso com o desejo do analista.

O desejo do analista
Lacan afirma que a formação do analista exige que ele vivencie em sua própria análise para atravessar a fantasia no sentido de nunca intervir como sujeito para com o analisando, mas sim sustentar um lugar que permita ao sujeito confrontar seu próprio desejo.

 

O lugar do analista e a função do objeto a

O analista, segundo Lacan, ocupa o lugar do objeto a, ou seja, aquilo que causa o desejo no sujeito. Isso significa que ele deve evitar qualquer identificação pessoal ou poder sobre o analisando. Sua ética está em sustentar um vazio, permitindo que o sujeito projete seus significantes e elabore suas questões. Na verdade, há apenas um sujeito em jogo na experiência analítica, e esse sujeito é "subvertido". Seu parceiro não é sujeito, ele não intervém na experiência senão como objeto, um objeto "ativo". A subjetividade do analista está fora de jogo, ela não entra em consideração. Servindo-se da comparação da análise com uma partida de bridge, Lacan dizia que no bridge analítico o único lugar possível para os sentimentos do analista era o do morto, sem o qual "o jogo prossegue sem que se saiba quem o conduz". O analista tem a responsabilidade da direção da cura e, para isso, é preciso que ele tenha uma forma de abnegação. É o termo que Lacan emprega para qualificar a posição do analista: uma posição de abnegação é requerida da parte do analista pela e para a experiência.

Responsabilidade e a Lei do desejo

A formação do analista exige que ele esteja comprometido com a Lei do desejo, o que significa que ele não deve ceder à tentação de dar respostas fáceis ou encobrir a verdade do sujeito. Ele deve sustentar a falta, permitindo que o desejo se estruture sem a imposição de uma solução adaptativa.Em  Televisão"O discurso que digo analítico é justamente o laço social determinado pela prática de uma análise".

Desse ponto de vista, o que faz laço entre o analisante e o analista é esse discurso. É claro que a transferência está aí presente, ela sempre constitui o núcleo central da experiência, a prática de uma análise pressupõe isso. Mas considerando-se o laço de transferência tal como Lacan faz nos anos 1970, isto é, levando em conta o fato de que a experiência analítica tem uma estrutura de discurso, a transferência encontra-se em alguma medida reduzida, definida segundo as funções do discurso.

A escrita do sujeito suposto saber – "eixo a partir do qual se articula tudo o que acontece com a transferência” – com as três letras S.s.S., põe em relevo uma relação entre dois termos, o sujeito e o saber. Pode-se considerar que ela precede a escrita dos matemas dos discursos que escrevem relações entre quatro termos da álgebra lacaniana, cada um deles designando uma das quatro funções do discurso: o sujeito, o significante mestre, o saber e o objeto mais-de-gozar. A elaboração dos discursos como laços sociais fundamentais estende-se por diversos anos de seminário, desde 1969 até 1974. Lacan afirma, então, que entre os seres falantes não há "outro laço senão o laço de discurso". O laço analítico seria, assim, uma fraternidade de discurso. Como entender isso? Podemos, claro, dizer que o analista e o analisante são, cada um deles, sujeitos do discurso do Outro que é o inconsciente. Mas não é só isso: a análise vai operar para cada um aquilo que ela já realizou para o outro, o advento do sujeito dividido, a radicalidade da castração.Somos, enquanto tais, filhos do discurso analítico. 
Na “Nota aos Italianos”, escrita por Jacques Lacan em 1973, é um texto breve, mas fundamental para entender sua posição sobre a psicanálise e sua transmissão. Ele foi redigido no contexto de um crescente interesse pela psicanálise lacaniana na Itália, especialmente por parte de um grupo de analistas que buscavam um contato mais direto com seu ensino.
Na década de 1970, a psicanálise lacaniana começou a se expandir internacionalmente, e Lacan foi convidado a dar conferências na Itália. No entanto, ele se mostrava cada vez mais crítico em relação às instituições psicanalíticas tradicionais, incluindo sua própria École Freudienne de Paris (EFP).
Nesse período, ele já estava elaborando a ideia do “nó borromeano”, um modelo que articulava os três registros fundamentais da psicanálise: o Real, o Simbólico e o Imaginário.
Na “Nota aos Italianos”, Lacan faz uma afirmação forte e provocadora: “Não há outra maneira de ser freudiano senão ser lacaniano.” Isso significa que, para ele, sua leitura de Freud era a única forma legítima de continuar o projeto freudiano. Ele via as instituições psicanalíticas da época como desviadas do verdadeiro ensino de Freud, tornando-se burocráticas e normativas.
Ele também reafirma que a psicanálise não pode ser reduzida a um método terapêutico ou a um saber acadêmico. Em vez disso, ela deve ser sustentada por um desejo de saber que vá além do domínio do eu.
Lacan já vinha criticando as instituições psicanalíticas há algum tempo, especialmente a IPA (Associação Psicanalítica Internacional), que ele via como um organismo burocrático preocupado mais com certificações do que com a transmissão autêntica da psicanálise.
Ele também começa a questionar a viabilidade da própria École Freudienne de Paris, que ele havia fundado em 1964. Essa dúvida culminaria, alguns anos depois, na sua decisão de dissolver a EFP em 1980.
A “Nota aos Italianos”  da ênfase no não-saber como fundamental na posição do analista. Ele alerta que o verdadeiro psicanalista não pode se contentar com um saber formal ou acadêmico, pois a experiência da análise leva necessariamente ao encontro com um buraco no saber, ou seja, com algo que escapa à compreensão.

Freud escreveu "A Questão da Análise Leiga" para responder aos críticos da prática psicanalítica pelos não-médicos e orientou, nesse escrito teórico-clínico, como designaria o chamado “leigo” em sua condição de psicanalista: um não-médico que poderia ter a designação de analista. 

O que Freud queria dizer com isso? Em primeiro lugar, que o conhecimento médico ou do psicólogo não seriam suficientes para a prática da psicanálise porque a qualificação do ofício de psicanalista não se coaduna nos moldes de certificados propostos pela Universidade; depois, porque os requisitos para a formação do analista vão além dos conhecimentos científicos e teóricos, incluindo não apenas esses conhecimentos essenciais, mas como ressalta:

“antes de tudo, somos levados à obrigação do analista tornar-se capaz, por uma profunda análise dele próprio, da recepção sem preconceitos do material analítico”

Freud nesse texto também se refere à necessidade de trocas de ideias entre jovens e velhos nas sociedades de psicanálise com o intuito de conectar tratamento e pesquisa, assim como estabelece a grande responsabilidade da delicada arte da interpretação.

Lacan propôs o dispositivo do passe apostando nessa "prova" a que se referiu Freud onde o analista, além de fundamentado na análise, estudos e supervisões, ainda assim é livre em seu movimento e sua ação. Ou seja, ainda que provas, no sentido de títulos e trabalhos reconhecidos são exigidas para o Analista Membro da Escola; a prova do passe para o Analista da Escola seria numa acepção de testemunho, comprovante de como uma análise – sua singularidade de como percorreu seu trajeto analítico.

A “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola” é um texto fundamental de Jacques Lacan, onde ele apresenta sua concepção sobre a formação do analista e introduz o dispositivo do passe. Esse texto foi escrito no contexto da École Freudienne de Paris (EFP), fundada por Lacan, e buscava responder à questão: como se reconhece um psicanalista?

Lacan critica a ideia de que um analista se torna tal apenas por meio de cursos teóricos ou pela titulação institucional. Para ele, a única prova real de que alguém se tornou analista é a sua própria análise e a experiência subjetiva dessa travessia.
Ele introduz a ideia de que o psicanalista não é nomeado por outros, mas sim reconhecido pelo efeito de sua análise. O processo pelo qual um analisante se torna analista passa pelo que ele chama de passe: um momento em que ele testemunha a experiência de sua análise diante de outros analistas.
Lacan cria o dispositivo do passe como um método para verificar se um analisante atingiu o final de sua análise e se pode se tornar analista. O processo envolve:
   •   O analisante que sente ter concluído sua análise se apresenta voluntariamente.
   •   Ele relata sua experiência a passadores, que são encarregados de transmitir esse testemunho a um grupo de analistas mais experientes.
   •   Esse grupo, chamado de cartel do passe, decide se a pessoa demonstrou, em seu percurso, um verdadeiro encontro com a estrutura do inconsciente e se pode ser reconhecida como analista.
Uma das frases mais famosas desse texto é:
“O analista não se autoriza senão de si mesmo… e de alguns outros.”
Isso significa que o analista não recebe sua autoridade de um diploma ou de um título oficial, mas sim da experiência de sua análise e do reconhecimento de sua posição por outros analistas que compartilham da mesma ética. Ele não pode ocupar esse lugar por mero desejo de poder ou de saber, mas sim a partir da experiência radical de sua análise, que o coloca diante da castração e da falta.
A “Proposição de 9 de outubro” é um marco na psicanálise lacaniana porque reformula a questão da formação do analista. Ao invés de ser uma questão burocrática ou institucional, Lacan insiste que se trata de um processo subjetivo, no qual o analisante deve atravessar sua análise até um ponto onde ele possa sustentar a posição de analista.

A clínica dos testemunhos dos AEs nomeados revela que, após a modificação do gozo, uma autorização pela via do desejo de analista advém. Seria essa prova a que Freud pede uma “legalização" contra o charlatanismo da época atualizando-se agora nos cursos de graduação de psicanálise?

Na verdade, Lacan propõe em sua Escola, seguindo a direção freudiana da análise do candidatoa analista”, que o mais importante seria levar esse sujeito a reconhecer o real da castração em sua própria análise: atravessar a experiência que o conduza ao ponto de apreender a lógica de sua fantasia fundamental e ausência de garantia no Outro. Desse modo o analista poderá colocar de lado seu gozo, perpetuado pela fantasia, para revirar a relação com o objeto a=>$

Único modo possível para acolher e preservar o discurso analítico. 

O passe é uma oferta da Escola e, ainda que esse fato não esteja ainda esclarecido para alguns colegas, não é uma obrigação dos membros de terem de se submeter à experiência, mas como ela é o âmago da Escola, todos podem partilhar do modo que quiserem: escrevendo artigos, votando nos membros dos cartéis do passe (CIG), indicando passadores, escutando os testemunhos dos colegas, enfim, sustentando a única prova de que fazemos psicanálise: articulação da clínica e Escola. 

A instituição analítica diz muito sobre o legado freudiano: ou bem se trata de um ideal a ser professado – ideal esse encarnado pelo pai idealizado e que deixa aos analistas uma posição de conforto, de abrigo, mas também de obscenidade (quem é mais amado pelo pai?) – ou, como aponta Colete Soler na proposta que Lacan escolhe com o cartel e o passe, colocando o discurso histérico (não o da histérica queixosa, mas aquele em que se pode entrar em análise buscando um saber – histerização do discurso) como o laço social entre os analistas: um discurso de identificação com a falta e que produz a transferência de trabalho.

Nos últimos depoimentos do passe fica evidente como cada um dos passantes deduziu a lógica da falta em sua análise.

Escobar relata:

“Os termos desperdicio e dejeto são termos fortes que falam do verdadeiro lugar do analista no tratamento, ele sobra como o resto da operação analítica. Para alguns, pode ser esmagador e para os outros, entre os quais me incluo, o entusiasmo que produz a cura, a nova-idade, a segunda juventude que dá a análise e a paixão que resulta quando se consegue explicar a tirania do impossível são o melhor antídoto para neutralizar a frustração de seu destino, que é advertido pela própria experiência, mas esse destino, ainda que a humanidade não queira saber é o destino de todos os seres falantes”.

 

Pedro Pablo Arévalo:

“Uma análise levada até o fim reescreve a história pessoal, produz voltas no passado, presente e futuro, de tal maneira e medida que tudo muda, e não há como voltar atrás. Tampouco ficam a nostalgia, nem o temor do gozo mais pavoroso. Assim, se passa, mas não se esquece. Tudo se recorda, mas é uma recordação-outra. É uma via estreita a da Psicanálise, mas o que se extrai dela será sempre mais vital do que a errância neurótica”.

 

Nesse tempo atual de “todos consumidores”, nos acercam na instituição as novas formas do que Freud designou de charlatanismo, ou seja, os sujeitos que querem ser analistas a qualquer custo, sem perceber de que não se trata de um título acadêmico que se consegue com alguns anos de estudo, mas, além disso, implica sempre num ato que é sempre singular. Então a equação “todos analistas”, é inverso ao postulado da Escola de Lacan, que, insistindo na sua garantia pelo dispositivo do passe, abandona o barco do discurso capitalista onde se compram títulos e comendas, para aportar no impossível de mercantilizar: o real que não engana. 

A psicanálise não é uma política, mas uma ética, uma ética do desejo que vai na contramão da política do desejo das políticas. no seminário A ética da psicanálise, propõe que o analista não é o garante do sonho burguês. O que é o sonho burguês? Permanecer no conforto. Ora, a tese de Lacan é que, para retornar à zona do desejo, é preciso renunciar aos bens, ao poder e ao conforto.

Ao mesmo tempo, pode-se deduzir daí que existe uma política da psicanálise que não pode ser baseada na ingenuidade. A ingenuidade está a serviço da ilusão de acreditar no otimismo. O entusiasmo como o afeto de fim de análise não é o mesmo que otimismo. Trata-se de um afeto que, ao contrário, supõe a queda dos falsos otimismos. Um afeto que não é a nostalgia das reivindicações de um passado melhor, nem a crença de um futuro marcado pela ideia de progresso. A política propõe a reunificação em torno de um ideal, ao passo que a psicanálise propõe a produção do um por um, o singular. Nesse sentido, é possível postular que a análise é subversiva sem ser revolucionária. A política visa ao arranjo, arranja as relações de modo a unificar as modalidades de gozo dos corpos e, para isso, fixa normas e exclui o fora da norma, ou seja, os sintomas. A ideia é que, quanto mais um sujeito se identifica com uma massa, mais ele perde sua identidade. A análise procede por um esquema oposto: para acessar o que cada um tem de mais singular, é preciso fazer um percurso que supõe a queda das identificações.

Ao extrair as identificações, o que se produz é uma queda das crenças e dos ideais. Essa é a condição de produção de um novo desejo. Percebe-se bem que a proposição ética da psicanálise vai na contramão da ética da felicidade promovida pela política. a política da psicanálise é a satisfação do desejo, mas, diferentemente da política, trata-se da satisfação de um desejo que não esteja alienado ao Outro, ou, antes, trata-se de um desejo efeito da desalienação. Resta dizer uma palavra sobre a ligação com o Outro em nossa época, marcada pelo narcisismo dos gozos sem a barreira dos ideais.

A resposta da psicanálise é que o desejo, ao final de uma análise, não é um desejo narcisista, mas um desejo advertido sobre o fato de que o gozo é do inconsciente, mas também de que não se goza do inconsciente sem o inconsciente do Outro. Por isso, a psicanálise não é uma prática que leva ao gozo autista, mas, sim, a um gozo que, embora seja de cada um, não pode ser obtido sem a implicação do inconsciente do Outro.

Portanto, a experiência do analista, experiência que é a da cura, à qual é necessário acrescentar a experiência que ele faz da doutrina, do saber analítico estabelecido e, em terceiro lugar, a experiência que ele tem do saber adquirido em sua própria cura e – isso é sobremaneira importante – as consequências que ele pode tirar desse acesso ao real que – é necessário lembrar – é na psicanálise real sexual: não há relação sexual. A arte de dizer do analista depende deste ternário do saber, do nó que se faz a partir: 

- daquilo que ele escuta nas curas que ele dirige, 

- de sua elaboração ( Durcharbeitung) a partir do saber obtido em sua cura, 

- da sua relação à doutrina analítica.

 

Ideal do bem:
Lacan critica a ideia de que a psicanálise deva conduzir o sujeito a um estado de “bem-estar” ou adaptação social. Para ele, a ética do analista não está em direcionar o analisando para um ideal normativo, mas em permitir que ele encontre sua própria posição em relação ao desejo. Izcovich, em Identidade: escolha ou destino:

“A ideia é que, quanto mais um sujeito se identifica com uma massa, mais ele perde sua identidade. A análise procede por um esquema oposto: para acessar o que cada um tem de mais singular, é preciso fazer um percurso que supõe a queda das identificações. Ao extrair as identificações, o que se produz é uma queda das crenças e dos ideais. Essa é a condição de produção de um novo desejo. Percebe-se bem que a proposição ética da psicanálise vai na contramão da ética da felicidade promovida pela política (bem comum). A questão que vale a pena se colocar, pois é fundamental, é de saber se a psicanálise promove a emergência de um sujeito indiferente à política. É isso que, às vezes, algumas pessoas criticam na psicanálise. Na verdade, trata-se do oposto. A psicanálise muda o mundo. Ela o muda de uma forma diferente da política, e é possível se questionar se ela, no fundo, não o muda até mais.”

 

 

Metáfora e letra

 Sintoma: Metáfora e Letra


A concepção de sintoma, conforme proposta por Lacan, se estrutura em torno de duas dimensões: o sintoma como metáfora e o sintoma como gozo. O sintoma enquanto metáfora se manifesta no jogo dos significantes, apresentando um sentido enigmático que é regido por leis intrínsecas à estrutura da linguagem. Por outro lado, o sintoma como gozo representa aquilo que se opõe à significação, evocando o incurável do trabalho que o sujeito realiza para enfrentar o real. 
Dessa forma, na psicanálise, o foco não se restringe à escuta, que apenas abordaria uma das faces, a do sentido enigmático — uma prática de decifração. Em vez disso, trata-se de uma leitura do que foi testemunhado pelo sujeito em relação ao acontecimento que deixou uma marca de gozo no corpo. Ao invés de buscar sentido, o analista deve, em sua ética , promover a redução do sintoma em sua dimensão semântica decifrável. Tudo isso para no final do processo analítico, o sujeito não dependa mais de suas ilusões, conseguindo identificar a lógica do sinthoma — uma letra que fixou um gozo no inconsciente - e que possa estabelecer um funcionamento que não se sustente mais ao Nome do Pai, mas que seja uma nova forma de lidar com a falta sem endereçamento ao S2. 

Palavras-chave:sintoma, metáfora, restos sintomáticos, sinthoma, letra, gozo.

O infantil e a psicanálise

  Nclínica psicanalíticareconhecemos o infantil em umdimensão que abrange muito além do tempo cronológico pois constitui a estrutura mesma de um sujeito. infantil é o que sobra na operação de castração, perda de gozo efetuada pela linguagem que só tem a chance de retornar como mais de gozo. As marcas traumáticas deixadas no aparelho psíquicono encontro com gozo do Outro e a fantasia, com sua função mediadora desse encontro com o real,são os alvos da operação analítica. O sujeito procura uma análise quando a fantasia transborda, ou seja, quando falhsua função de tela e anteparo do Outro, produzindo sintoma. O sintoma como testemunha que houve acontecimento que imprimiu um gozo, um acontecimento de corpo, mais do que a fantasia – que pode ser exprimida numa frase – guarda uma relação com o infantil, com o real. sintoma fixa uma modalidade de gozo que Lacan vai denominar como suprindo a falta da relação sexual que não existe e no final, pode trocar sua fixação à marca traumática de gozo por uma fixação à letra do seu sintoma.

Palavras-chave: infantil, marcas traumáticas, fixação, fantasia, sintoma, gozo.