terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A DOR DE EXISTIR E A MEDICALIZAÇÃO


Vivemos numa civilização dominada pela barbárie da medicalização. 
Cada vez mais nossa medicina do mundo ocidental prescreve drogas com o intento de solucionar a dor e a agonia do sujeito ante o imperativo de felicidade imposto pela demanda moderna, capitalista ou globalizada.

Independente de como denominamos nossa contemporaneidade, o que está em pauta, e acrescentando poder à medicalização, é seu casamento com as terapias rápidas, de resultados ‘imediatos’ e ‘medidos’: desde a TCC, neurolinguística, transpessoal, coaching ou hipnose, isso sem contar com o xamanismo e as diversas seitas que garantem cura.

A ideologia medicamentosa prescreve a todos a mesma droga, embora compreendendo que as enfermidades são diferentes; a guisa de exemplo podemos citar as medicações para TDAH, luto, menopausa, senilidade, adolescência e, mais recentemente, a tristeza. 

Atualmente não parece existir qualquer impedimento ético ou clínico, como podemos constatar tanto nos nossos neuróticos tomando antipsicóticos sem limite, como a medicalização da dor de existir, própria da condição humana.


A psicanálise não desvaloriza os avanços da ciência farmacológica, inclusive porque graças a muitos medicamentos é que existem tantos pacientes psicóticos em tratamento psicanalítico. 

A perspectiva da psicanálise é de que o sujeito exerça sua singularidade, reconheça a alteridade na qual se constituiu, porém sem o curto-circuito da dor de existir, mas oferecendo condições para que possa se questionar sobre esse excesso de gozo e passar ao registro do desejo.

EPIDEMIA DO SÉCULO

A medicalização da dor de existir pelos psicofármacos ganha sua notoriedade na impotência subjetiva, tão difundida como depressão, apresentada pela OMS como a epidemia do século XXI, o que alimentou a voracidade da indústria farmacêutica e a cultura da intoxicação. 

Advertidos por Freud, em “Mal estar na civilização”, onde afirmava que, diante do sofrimento e da infelicidade do mundo moderno - falta de ideais que reduzia o humano a três determinantes: o corpo biológico, o mundo externo e as relações com os outros - desde então considerava que o homem não dispunha de outros meios a não ser forjar novas ilusões a partir de três escolhas inconscientes que são a neurose, a intoxicação e a psicose. 

Isso quer dizer que a cultura da drogadição já estava prevista em Freud, como
apontando que quando a religião falha em responder, a droga cumpre o papel de manter um ideal fora da lei simbólica, já que para qualquer sujeito, qualquer droga é possível.

Em “Estruturas clinicas y salud mental”, Nominé observa que as seitas são fundadas nesse ideal de uniformidade. De preferência recrutam e seduzem sujeitos ‘deprimidos’, que perderam suas marcas simbólicas e encontram na ilusão de unidade com seus irmãos idênticos em torno de um líder carismático ou delirante, que os protege da alteridade. Na seita, no fanatismo (poderíamos anexar aqui), a ilusão da neurose infantil é mantida e o sujeito vive a perversão polimorfa, se negando a considerar a lei da interdição do incesto. Lacan diria que dessa forma fazem a existência da relação sexual. Com isso, esses sujeitos não conseguem produzir o mito individual do neurótico, pois não levam em conta o desejo do Outro.

Se em ‘Psicologia das massas’, Freud aborda o enlaçamento do grupo pelo Eros, colocando ainda um chefe no lugar de ideal, nos anos ’20, em sua visão mais pessimista, inclui o thanatos como o que estaria fora e ameaçando o grupo.

 Interessante notar que são os jovens de classe média e alta que aderem ao Estado Islâmico. Sabemos hoje que são jovens educados, habituados ao uso da internet, porém afundando, se drogando, sentindo-se fracassados, desiludidos com as crenças políticas, que perderam o rumo do desejo e caem fascinados pela promessa de ideais imaginários: glória, poder e dinheiro. Maajid Nawaz, em seu livro “Radical” afirma que ao contrário dos protestos estudantis dos anos ’60, ao utilizar a religião e o multiculturalismo como fachada, esse fanatismo do Estado Islâmico dá o rótulo de racismo e intolerância a qualquer opositor. 
Ou seja, a geração que foi simpatizante socialista ocupa cargos de gestão nessa ideologia.

Nesse sentido é que os canalhas podem amontoar riquezas e prestígio, fazendo-se de Outro, senhor dos desejos dos discípulos que se sacrificam para estar nas boas graças do líder. Enfraquecendo as balizas simbólicas pelo discurso capitalista, que reduz o objeto do desejo ao objeto da demanda e da necessidade, será que com isso preparamos uma geração para o registro da irresponsabilidade?

 Será que o capitalismo avassalador impõe as condições da chamada epidemia da depressão em nossa época?

Lacan apregoa que o sujeito é sempre responsável, mesmo que dependa do modo de relação com o Outro, ainda assim ele elege sua posição de resposta.

 A depressão, assim como a obesidade, a anorexia, a bulimia, são índices do excesso que vem do Outro, puro gozo. Izcovich, em “A depressão na modernidade”, aponta para o caráter de denúncia que esses casos
impõem ao sistema capitalista, de uniformidade do desejo, objetos a consumir, direito ao gozo, narcinismo, sujeitos interconectados.

 O sujeito atual se vê impossibilitado na sua habilidade de resposta ao sofrimento – seja luto ou algum mal estar – que pode advir num crescimento subjetivo.

Na depressão fica escancarado o ‘não quero saber nada sobre a causa do desejo’ do sujeito, que elege o gozo. A subjetivação do desejo implicaria numa passagem pela angústia e é disso que o sujeito tenta se livrar, sob o custo de paralisar. A depressão seria então um muro que o sujeito ergue para tergiversar a castração, uma máscara de defesa frente ao desejo do Outro, antecipando o sinal de perigo, sem constituir um sintoma, inibindo as funções do EU.

CLINICA PSICANALÍTICA

A prática psicanalítica depende da posição na qual o analista opera. Nem sempre quem busca um analista transforma-se em analisante, mas é o analista quem não deve recuar de seu ato visando outra finalidade para, por exemplo, desejar a cura do paciente.

Na conjuntura atual, com mínimas probabilidades de aparecimento da singularidade dos sujeitos, no curto-circuito que o sistema capitalista estabelece - o sujeito e seus objetos - a psicanálise oferece uma saída que não a intoxicação, nem a depressão.

Soler, em “Declinações da angústia”, fala de uma ‘solidão histórica’ para definir esse modo de cada um com seu gozo, regime do ‘narcinismo’. Os sujeitos se dedicam às próprias satisfações investidas na denegação da angústia. 

Foi o que Bauman, em sua recente obra “Babel” chamou de ‘solitários interconectados: ‘Assumir responsabilidades é um fardo, melhor ser espectador de um acontecimento divulgado na mídia do que fazer seu próprio trabalho de interpretação, a dura existência depende da eletrônica, numa época onde a comunicação destrói a comunicação’, uma bela descrição do que acontece no despedaçamento dos laços sociais.

Cada caso em análise tem sua trajetória única, ainda que, em todos os casos, a depressão só seja considerada pelo analista ao tornar-se um sintoma para o sujeito. 
Somente se na repetição de suas dores possa ser introduzido um enigma: o que isso quer dizer? 

A partir daí se coloca em funcionamento a trama teórica que sustenta a prática: transferência, inconsciente, repetição e pulsão. Contudo, antes de qualquer coisa, o diagnóstico diferencial: melancolia, “a sombra da morte caída sobre o objeto” ( Freud, luto e melancolia) ou depressão neurótica?

A definição do diagnóstico é fundamental na direção do tratamento e mesmo na depressão neurótica ainda há de se saber de que modo se deu a relação do sujeito com o significante, pois aqui se trata de conceder a mobilização do inconsciente.

Interessante notar que quando o deprimido chega ao analista, uma pergunta acompanha: 
Por que fulana está tão deprimida se tem tudo? 
Não lhe falta nada, por que essa infelicidade?

 Diante da premissa de todos iguais, todos felizes, mesmos modelos e objetos de consumo, o discurso analítico, diz Lacan, em “Televisão”, é o único que pode subverter o discurso capitalista:
 ‘A tristeza, por exemplo, é qualificada de depressão ao lhe conferir como suporte a alma...Não se trata , porém, de estado d’alma, é simplesmente uma falta moral...: um pecado, o que quer dizer, covardia moral, que só se situa, em última instância, do dever de bem dizer ou de orientar-se no inconsciente, na estrutura.’ 

Ou seja, a depressão é uma economia com relação ao desejo, porque na neurose o sujeito gasta, se movimenta para alcançar o desejo.

A política do analista é encarar qualquer risco perante o mapa pessimista da atualidade. Enquanto as psicoterapias acomodam o sujeito aos ideais da sociedade de nossa época, transmitindo valores donde saber e verdade estão em total harmonia, prometendo a identificação e o empuxo ao gozo, a psicanálise rebate como uma experiência subversiva que conduz o analisante a interrogar o saber universal para conquistar um saber particular.

Em “Radiofonia” Lacan pergunta: ‘será que os analistas serão capazes de demonstrar que vale a pena crer no sintoma?’

A psicanálise, ao contrário do que apregoam seus críticos, não se encontra num impasse histórico em relação aos fármacos que dizem oferecer alívio imediato ao desamparo sem passar pela angústia. O que tem se verificado na prática clinica é que as chamadas ‘crises de pânico’ se proliferam com muito apelo à significação, apesar e talvez até, por causa das medicações cada vez mais ineficazes para o que escapa ao sentido do desejo inconsciente.

Por fim, a tristeza, a decepção que em alguns momentos surgem no caminho do sujeito rumo ao desejo e paralisam, poderá, no encontro com um analista, subjetivar e demandar um saber que não se sabe. 

Um saber que, no decorrer da análise, por vezes se anuncia como um dizer impossível – angústia - mas ainda assim, única via de acesso lógico ao desejo. No final será possível aceder ao desejo mais além da angústia, mas, para tal, será preciso um passo a mais na direção do retorno à clinica.

terça-feira, 1 de abril de 2014

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A clínica psicanalítica

Curso de extensão CESMAC / ATO ANALÍTICO  módulo: as estruturas clínicas I
 Maceió 5 a 7 de dezembro de 2013

  Com a noção de estrutura abandonamos na psicanálise a continuidade biológica e a maturação do ser fisiológico, para, desde Freud na Interpretação dos sonhos, apreendermos o aparelho psíquico em termos de configuração de elementos relacionados entre si.
  A função operatória na clínica psicanalítica passa a ser concebida por Freud como elucidação dos estratos superpostos que o tratamento vai desvelando e que são articulados num certo ordenamento que a associação livre vai denunciar.
   Em "Observações sobre o relatório de Lagache", Lacan retira do estruturalismo o que lhe interessa para a clínica do sujeito:'Pois, é ou não o estruturalismo aquilo que nos permite situar nossa experiência como o campo em que isso fala? Em caso afirmativo, 'a distância da experiência' da estrutura desaparece, já que opera nela não como modelo teórico, mas como a máquina original que nela põe em cena o sujeito'.
   Portanto,o analista faz um diagnóstico - a palavra diagnosticar tem origem francesa que do grego diagnostkóns, quer dizer “capaz de ser discernível” -  não aquele comum dos médicos que descreve os sintomas, sinais de que o sujeito vai mal na sua inserção no mundo, mas verifica em cada padecimento, em cada dor, o modo de de constituição dos sintomas em função do binarismo: gozo//sentido.
Diagnóstico diferencial pela escolha forçada, como diz Lacan no Seminário XI, pode ser empreendido a partir da lógica significante. Quando o sujeito "escolhe" a história familiar, perde uma parte de seu ser. Essa marca que o sujeito recebe e o modo como "responde" ao real é o que pode orientar a direção do tratamento:
  • alienado aos significantes do Outro,enigma que vai percorrer seu destino frágil em uma busca incessante, neurose;
  • alienado aos significantes do Outro mas preso a um único sentido e criando uma nova forma de mundo, psicose;
  • alienado, porém sem enigma mas "sugerindo" uma resposta, perversão.                                                       Como bem explicitou Colette Soler no Encontro Brasileiro em BH, "as marcas são singulares e essas marcas da história singular escondem a estrutura". Ou seja, as marcas se inscrevem conforme a estrutura e o trabalho na clínica psicanalítica é levar o sujeito a perceber, a conhecer suas marcas de estrutura para finalizar em sua "infelicidade banal".





quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O escrito do analista e o desejo de saber

      

  O escrito do analista e o desejo de saber
                  Alba Abreu Lima     Projeto Freudiano - 1992
 
 “Só temos escolha entre enfrentar a verdade ou ridicularizar nosso saber”.  Lacan na Proposição de 09 de outubro de 1967

Os analistas, diante do horror ao ato analítico encontram, na escrita, a possibilidade de formalização deste ato.  Cada vez que o analista se interroga sobre aquilo que faz, recorre às formulações de Freud e se utiliza dos matemas lacanianos para interrogar seu ato; o horror pelas modificações que ocorrem na vida de um sujeito por efeito de interpretação.
O avanço e a transmissão da psicanálise são o resultado do movimento particular que cada analista busca nessa experiência com o saber inconsciente; enquanto analisante e em sua prática clínica; no trabalho de Cartel e no Passe.
O estatuto do escrito do analista é uma tentativa de ler e explicar este saber.  Saber onde, diz Lacan:
  “ o sujeito vê soçobrar a certeza que ele tomava desta fantasia onde se constitui para cada um, sua janela sobre o real, o que se percebe é que a tomada do desejo não é mais que a de um des/ser”,
 em uma virada que representa a passagem de analisante à analista. O que não quer dizer que esse saber tenha a ver com o conhecimento adquirido da teoria, mas do que se trata é do saber inconsciente.
 Só se entende verdadeiramente um texto psicanalítico quando se aprende a ler o inconsciente.  “Leitura do inconsciente”, essa é a forma que Lacan propõe no Seminário 20, de tornar possível passar o gozo ao dizer.  E é o que permite ao sujeito fazer um percurso desde antes de uma análise, quando o sujeito ainda se encontra no “não quero saber nada disso” - C. Soler diz que a humanidade não tem desejo de saber, por isso a psicanálise vai à contra mão das inovações da modernidade.
  O sujeito já sabe tudo o que tem de saber para fins de seu gozo e somente no decorrer da análise, quando pode dirigir o amor ao saber por obra e graça da transferência, saber suposto, pode então vislumbrar mais além do gozo e, ao final, Lacan aposta no desejo de saber, modo de operação para os que posam sustentar essa posição de des-ser e tornar-se analista.
a escrita do analista
Não há escrita que não seja de uma língua articulada.  A escrita, na concepção dos pesquisadores, é uma representação visual e durável da linguagem, que a torna transportável.  É um código que transmite mensagens verbais.  Escrevem-se desde sempre os fatos de linguagem: provérbios, canções, avisos, apelos ou interdições. É a inscrição visual da palavra falada, tempo segundo do discurso: Não existe escrita, sem palavra prévia.
Lacan (seminário 17) diz que a condição da escrita é que ela se sustente por um discurso. Por isso, o analista escreve sobre como suporta a demanda sob transferência, como aceita os limites do seu saber e como esse saber pode vir a ocupar o lugar da verdade no discurso analítico. O discurso como laço social é um modo de gozar a partir da linguagem e, para estarmos no mundo civilizado seria preciso um “refreamento das pulsões” ( no dizer freudiano), o que significa perda de gozo. Todo discurso é, portanto, um aparelho de gozo sob o olhar de Lacan.
Freud guardava uma relação muito especial aos seus escritos.  Nas reuniões das quartas-feiras ele apresentava seus informes sobre os casos clínicos e suas descobertas teóricas antes mesmo de publicá-los: era a sua “caixa de ressonância”.  Sua maneira de demonstrar a ética psicanalítica: para que o saber possa estar no lugar da verdade, é necessário que o grande Outro seja barrado.  Freud aceitava o limite dessa barra, ele desejava acima de tudo escutar aquele insabido – Das unbewusste. Seus casos clínicos são comentados até hoje como fracassados pelos especialistas. Seus “erros” estão colocados em seus escritos. Ele não se preocupava nem modificava ou corrigia suas publicações, apenas acrescentava PÓS-ESCRITOS, denunciando que a Psicanálise não funciona como uma ciência exata e nem pretende ser toda.
Lacan retornou a Freud, lendo os textos originais no alemão.  Denunciou os extravios da teoria pós-freudiana e reafirmou que a disciplina do comentário de textos de Freud seria uma parte importante na formação dos analistas. A cada novo Seminário, Lacan escrevia um texto correspondente.  Embora, ele mesmo tenha dito que seus “Escritos” não são para serem compreendidos, eles fazem parte junto com o Seminário de suas importantes elaborações teóricas.
No Seminário I, Lacan diz que se a obra de Freud tem um sentido, é que:  “a verdade pega o erro pelo cangote, na equivocação. Explica que nossos atos falhos são atos bem sucedidos.  E que, as palavras que tropeçam, confessam.  A verdade está sempre por detrás: no interior da associação livre, nas imagens do sonho e no sintoma. E isso é tudo o que se pode escrever sobre um caso clínico para atestar os efeitos decorrentes.
Schereber, em Memórias de um Doente dos Nervos, recorre também ao escrito para veicular sua metáfora delirante como um recurso utilizado para sair do asilo.  O analista assim com Schereber, deve sair de seu consultório, dessa posição “autista” como nomeia Miller, para escrever.  Trabalhar seus escritos com os colegas, demonstrar como o desejo de saber produzido em sua análise pode levá-lo a transmitir os efeitos do ato analítico em sua clinica.
O desejo de saber, como condição essencial ao ato analítico, é, no entanto, insuficiente para a transmissão da psicanálise.  O analista deve se dispor a se dividir como sujeito, no discurso da histérica, em seus escritos, para reencontrar os significantes perdidos no seu ofício, restos de supervisões e relatos de casos. Assim, diante da angústia provocada pelo ato analítico que é solitário, da certeza da impossibilidade de relação sexual, o analista escreve seus casos clínicos, sua elaboração de cartel e apresenta nos Encontros.
 Lacan, em Mais Ainda, diz:
 “Tudo que é escrito parte do fato de que será para sempre impossível escrever como tal a relação sexual. É daí que há um certo efeito do discurso que se chama a “ESCRITA”.
  A escrita é então um efeito do discurso analítico.  Ela não visa como a ciência, construir e expor um saber cumulativo (conhecimento científico).  É preciso ir além: ter uma chance de contribuir com o enunciado de Lacan:
“A verdade não serve senão para marcar o lugar onde se denuncia o saber”. (Carta aos Italianos)
Enquanto no cartel e nos casos clínicos se expõe um saber-fazer, no passe acentua-se o próprio discurso analítico.  Ou seja, no discurso analítico, o agente é o objeto causa de desejo, que está assentado sobre um saber, situado no lugar da verdade - mola mestra do discurso.
Lacan reconduziu a psicanálise para a relação entre sujeito e verdade.  O sujeito paga ao analista para dizer a verdade sobre si mesmo.  O saber parte dessa verdade que jamais será dita toda. A psicanálise busca um saber não sabido e a verdade enquanto valor lógico.
 Lacan, no “Avesso da psicanálise” diz:
 “nenhuma evocação da verdade pode ser feita senão ao se indicar que ela não é acessível a não ser por um semi-dizer que ela não pode se dizer inteiramente, pelo fato de que mais-além de sua metade, não há nada a dizer”.
Neste Seminário XVII, Lacan trabalha com afinco a questão da verdade.  Para isso, fez uma leitura fecunda do Tractatus Lógico-Philosoficus de Ludwig Wittgenstein.  O Tractatus, assim como a psicanálise, reivindica o direito ao silencio e obedece à lógica do não-todo:
 “Aquilo que não se pode falar, deve-se calar”.
 Lacan comenta que no sentido wittgensteiniano, a verdade é irmã do gozo.  A verdade tem esse efeito de incompletude, assim como o gozo é interditado a quem fala.  Ele afiança: “não há sentido que não seja do desejo” e “não há verdade senão daquilo que esconde esse desejo de sua falta, fingindo que não quer nada diante do que encontra”.  A verdade seria então essa ordem que impõe a castração e que o sujeito só pode lidar a partir da invenção do saber.  O inconsciente é a condição da linguagem e a verdade é inseparável dos efeitos dessa linguagem, diz Lacan, embora esteja fora do significante.
Para o analista, a verdade necessita que o analisante vincule em palavras seu desejo, lei da associação livre.  É no momento mesmo que o analisante é atravessado por um chiste, um ato falho ou um sonho, que a verdade pode surgir.
Lacan diz que o analista, enquanto objeto a suporta a função de letra.  Letra a cair; como toda letra, quando se lê, faz dizer.
Na alfabetização das crianças, costumamos fazer ilustrações das letras com desenhos para que elas fixem na memória a forma da letra.  É a imaginarização da letra.  Mas quando essas crianças começam o aprendizado da leitura, as letras perdem completamente seu valor próprio, em si, saem da posição de imagem para dar sentido às palavras.  As letras perdem sua singularidade para compor o infinito processo de metonimização da leitura. Por isso que, inadvertidamente, as professoras cometem falhas reclamando dessa “letra feia” que a criança começa a escrever, sem ter em conta que agora sim, algo delas mesmas esta presente ali, não somente uma cópia do ‘22 como dois patinhos na lagoa’, por exemplo.
No final, quando o desejo de saber advém pela passagem de analisante a analista e o gozo encontra uma nova satisfação no bem dizer, o analista cai, como resto, rebotalho, lixo, mas também letra.  E são esses os testemunhos escutados dos passantes.
Na escrita, assim como quem aprende a escrever, o analista reencontra as letras caídas da leitura e passa a colocar essas letras em lugares determinados para dar sentido e fazer laço social entre os analistas, através da veiculação de seus casos clínicos na escrita.
ENCONTRO INTERNACIONAL DO CAMPO FREUDIANO  

CARACAS, 1992

domingo, 20 de outubro de 2013

PREENCHENDO O VAZIO

Cena de 'Preenchendo o vazio'  (Foto: Divulgação)O filme " Preenchendo o vazio" merece o Oscar de melhor filme estrangeiro! Da cineasta judia, Rama Burshtein, o filme mostra o interior da comunidade hassídica com uma profundidade e singeleza nunca antes vista.A " menina" Shira (Hadas Yaron, vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza 2012) é uma surpresa e arrebata o espectador para dentro da cena o tempo inteiro, emocionando seja pela ingenuidade, seja pelas atitudes comuns de qualquer adolescente de qualquer época ou lugar, nisso o filme é universal porque, apesar de colocar como única função das mulheres o casamento, as indecisões e pequenas intrigas das mulheres em volta do assunto é algo quase familiar. "Preenchendo o vazio" descobre um véu sobre a religiosidade, delicadeza e seriedade nos assuntos dos judeus ortodoxos, mas acima de tudo, a solidariedade, alegria de viver e senso de vida em família - a família não é " assunto de mulheres", pois os homens estão presentes desde o primeiro ato de vida até a preservação da memória dos mortos.À primeira vista a condição feminina não parece muito diferente da de outras mulheres sem direitos ou possibilidade de escolha fora do lar, mas uma frase coloca em xeque tudo o que julgamos compreender como negativo, é quando a mãe de Shira, devastada com a morte da filha Esther e a possibilidade do neto ir morar na Bélgica com seu genro num segundo casamento, diz ao marido: vou enlouquecer! Ele ( diferentemente de tudo que se sabe dos homens na clínica psicanalítica, na vida, nas novelas) retruca: PODE ENLOUQUECER, EU ESTOU AQUI! 

sábado, 28 de setembro de 2013

25 ANOS DO PROJETO FREUDIANO DE ARACAJU



HISTÓRIA  DO PROJETO FREUDIANO
                                                       Alba Abreu Lima
História é uma palavra com origem no antigo termo grego "historie", que significa "conhecimento através da investigação". Trata-se de uma ciência que estuda a vida do homem através do tempo: investiga o que os homens fizeram, pensaram e sentiram enquanto seres sociais. O conhecimento histórico ajuda na compreensão do homem enquanto ser que constrói seu tempo. A história relata a evolução de organizações de diversos tipos. Nesse sentido, podemos dizer que a história do Projeto Freudiano se confunde com a HISTÓRIA DA PSICANALISE EM SERGIPE.
Desde que foram lançadas as sementes do saber psicanalítico em 1984, com um pequeno grupo de estudos que coordenava, há quase 30 anos, podemos afirmar que hoje é tempo de colher frutos! Todas as instituições de psicanálise do Estado foram organizadas após nossa fundação em 1988 – algumas até nascidas com pessoas que beberam de nossa fonte - e desde então, se podemos nos vangloriar de alguma coisa nessa trajetória é de nosso rigor ético, de respeito e consideração pelos diversos saberes em nosso Estado.
O PROJETO FREUDIANO teve como objetivo a divulgação, o estudo teórico-clínico e a transmissão da psicanálise, numa visão crítica de seus fundamentos, orientando a formação dos analistas e dirigindo nossos pares à Escola de Lacan – antes vinculado ao Campo Freudiano, e desde 1998 ao Campo Lacaniano - onde podem buscar a garantia de uma práxis, mais além do que nos propomos a oferecer.
 Sempre estivemos abertos, colocando o discurso analítico em consonância com as agruras no nosso tempo, debatendo, elaborando trabalhos e participando ativamente na política da CIDADE: no direito, na saúde, na escola, na universidade, na arte e em todos os campos onde o sujeito de insere com sua falta e suas demandas de acolhida.
Por fim, gostaria de agradecer aos que caminharam e os que hoje caminham comigo, encarando as diferenças dentro de nosso laço, comum de qualquer sociedade humana e, mais além, enfrentando os inimigos da psicanálise com seus “livros negros” e a visão reducionista de que o homem se restringe a seu comportamento. Cito Freud em O futuro de uma ilusão:
 “Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar.