segunda-feira, 27 de abril de 2026

Saber fazer com o sintoma

 Saber fazer com o sintoma

Jacques Lacan, em seu retorno a Freud, estudará os conceitos clínicos de inibição, sintoma e angústia à luz de sua teoria dos três registros: o Imaginário, o Simbólico e o Real. No Seminário 10 – A angústia, esses fenômenos são explorados como formas distintas de relação do sujeito com o desejo, a linguagem e o gozo. O desenvolvimento teórico de Lacan, no entanto, não permanece estático. No Seminário 23 – O sinthoma, já em seu ensino tardio, o sintoma ganha outra função: de mensagem a ser decifrada, torna-se um modo singular de amarração do sujeito ao real. É esse percurso teórico que analiso, articulando os três conceitos clínicos aos registros lacanianos, e desdobrando sua transformação no conceito de sinthoma.

Freud propõe, em Inibição, sintoma e angústia, uma diferenciação conceitual que responde às limitações do funcionamento psíquico diante do conflito intrapsíquico. A inibição é concebida como uma restrição funcional do eu, que não implica, necessariamente, a presença de um conteúdo recalcado. Ela se dá, por exemplo, nas dificuldades de leitura, fala ou trabalho intelectual (Freud, 1926/1996). Lacan no Seminário 10 também aponta que está sempre na função do eu e, a situa no campo do Imaginário, onde o sujeito se vê capturado na relação com sua imagem e nas identificações narcísicas. Trata-se, portanto, de uma perturbação que incide sobre a consistência do eu e sobre o corpo como imagem, impedindo sua livre expressão no laço social.

No mesmo seminário, Lacan reafirma o estatuto do sintoma como formação do inconsciente, situado no registro do Simbólico. O sintoma, como em Freud, é interpretável, decifrável, portador de sentido, mesmo que enigmático. Assim, o sintoma responde à lógica do significante: é um efeito da linguagem sobre o corpo, e seu tratamento se dá pela via da interpretação, do desvelamento de um saber inconsciente articulado em palavras.

Diferentemente da inibição e do sintoma, a angústia é situada por Lacan no campo do Real, pois ela não engana— não se trata de uma formação do inconsciente, mas de um afeto que emerge quando o sujeito se vê confrontado com o que escapa à simbolização: o objeto a. É o que aparece quando o objeto a, causa do desejo, se apresenta em lugar de faltar. Ao contrário do medo, que tem um objeto nomeável, a angústia revela o furo no simbólico, a presença do gozo que irrompe como excesso. É neste ponto que a experiência do sujeito colapsa — não mais mediada pelo significante, mas atravessada por algo do corpo que não se representa.

Pollo (2022 p. 115) observa que desde o Seminário 10 “pode-se perceber que o sintoma, embora simbólico, se faz acompanhar pela emoção, imaginária, e pode desembocar em acting out, que visa o Outro real”.

A partir dessa reformulação, Lacan desloca a clínica do sentido à clínica do gozo. O sintoma já não é apenas uma formação de compromisso, mas uma resposta do sujeito à intrusão do gozo, ao impossível de ser simbolizado. Esse deslocamento prepara o terreno para o conceito de sinthoma, trabalhado no final de sua obra.

No Seminário 23 (1975–1976/2007), Lacan introduz a grafia arcaica "sinthoma" para marcar uma distinção crucial: o sinthoma não se presta mais à decifração simbólica como na clínica clássica, mas se configura como uma invenção singular do sujeito para sustentar-se no real. O sinthoma é aquilo que permite ao sujeito amarrar os três registros — real, simbólico e imaginário — quando a função do Nome-do-Pai está falha ou foracluída.

O caso paradigmático trabalhado nesse seminário é o de James Joyce, cuja escrita teria funcionado como suplência do Nome-do-Pai.  Lacan desenvolve a tese de que Joyce, ao escrever sua obra, elaborou uma forma de costura subjetiva que enodou os três registos ao seu sinthoma. Seu estilo literário, marcado pela opacidade do sentido, pela proliferação de jogos de palavras e neologismos, não visa comunicar, mas amarrar o gozo à letra, produzir um corpo de escrita que sustenta sua posição como sujeito.

Em vez de buscar sentido no sintoma, como na tradição analítica anterior, Lacan propõe uma torção clínica: o sinthoma não se interpreta — sustenta-se. Não é mais o saber recalcado que retorna como enigma, mas o sinthoma como saber-fazer, ou seja, uma prática singular do sujeito com o seu modo de gozar. A distinção sintoma/sinthoma conforme Rithée Cevasco “correspondem, respectivamente, à diferença entre “aquilo que cai” e “aquilo que enoda”, faz laço amarra” Vera Pollo os distingue entre “o que o faz o sujeito sofrer e o isola do laço social e aquilo que, ao contrário, o inscreve ou inclui no social” (Pollo, 2022, p.117).  

A trajetória conceitual que parte da inibição e do sintoma freudiano, atravessa a angústia como sinal do real, e culmina no sinthoma como borda de gozo, revela o deslocamento da psicanálise de uma ética da verdade para uma ética do real. Enquanto o sintoma freudiano se prestava à leitura e à interpretação como vias de cura, o sinthoma lacaniano se sustenta como um saber-fazer com o impossível.

Essa passagem do saber-sintoma — onde o inconsciente estrutura-se como linguagem — ao saber-fazer com o sinthoma aponta para uma clínica orientada não mais pela restauração simbólica do sujeito, mas por sua invenção singular diante do irredutível do gozo. A escrita de Joyce ilustra esse ponto de maneira exemplar: o sinthoma como estilo, como obra, como letra que sustenta um corpo e um nome. Assim, não se trata mais de curar o sintoma, mas de saber fazer com ele - com arte, linguagem e existência.

 

Referências

Freud, S. (1996). Inibição, sintoma e angústia (J. Salomão, Trad.). In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 20, pp. 77–176). Imago. (Original publicado em 1926)

EPFCL Brasil (2022) O sintoma e o psicanalista: topologia, clínica, política. Aller: São Paulo.

Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: A angústia (M. B. Magnabosco, Trad.). Jorge Zahar. (Original publicado em 1962–1963)

Lacan, J. (2007). O seminário, livro 23: O sinthoma (Laia, S. Trad.). Zahar. (Original publicado em 1975–1976)

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