segunda-feira, 27 de abril de 2026

Ética na formação do analista

 Espaço escola Arapiraca – março 2025

 Forum do campo lacaniano de Alagoas

 

Ética na formação do analista

Em seu Seminário 7 – A Ética da Psicanálise (1959-1960), Lacan discute a ética não como um conjunto de normas morais, mas como um compromisso com o desejo do analista.

O desejo do analista
Lacan afirma que a formação do analista exige que ele vivencie em sua própria análise para atravessar a fantasia no sentido de nunca intervir como sujeito para com o analisando, mas sim sustentar um lugar que permita ao sujeito confrontar seu próprio desejo.

 

O lugar do analista e a função do objeto a

O analista, segundo Lacan, ocupa o lugar do objeto a, ou seja, aquilo que causa o desejo no sujeito. Isso significa que ele deve evitar qualquer identificação pessoal ou poder sobre o analisando. Sua ética está em sustentar um vazio, permitindo que o sujeito projete seus significantes e elabore suas questões. Na verdade, há apenas um sujeito em jogo na experiência analítica, e esse sujeito é "subvertido". Seu parceiro não é sujeito, ele não intervém na experiência senão como objeto, um objeto "ativo". A subjetividade do analista está fora de jogo, ela não entra em consideração. Servindo-se da comparação da análise com uma partida de bridge, Lacan dizia que no bridge analítico o único lugar possível para os sentimentos do analista era o do morto, sem o qual "o jogo prossegue sem que se saiba quem o conduz". O analista tem a responsabilidade da direção da cura e, para isso, é preciso que ele tenha uma forma de abnegação. É o termo que Lacan emprega para qualificar a posição do analista: uma posição de abnegação é requerida da parte do analista pela e para a experiência.

Responsabilidade e a Lei do desejo

A formação do analista exige que ele esteja comprometido com a Lei do desejo, o que significa que ele não deve ceder à tentação de dar respostas fáceis ou encobrir a verdade do sujeito. Ele deve sustentar a falta, permitindo que o desejo se estruture sem a imposição de uma solução adaptativa.Em  Televisão"O discurso que digo analítico é justamente o laço social determinado pela prática de uma análise".

Desse ponto de vista, o que faz laço entre o analisante e o analista é esse discurso. É claro que a transferência está aí presente, ela sempre constitui o núcleo central da experiência, a prática de uma análise pressupõe isso. Mas considerando-se o laço de transferência tal como Lacan faz nos anos 1970, isto é, levando em conta o fato de que a experiência analítica tem uma estrutura de discurso, a transferência encontra-se em alguma medida reduzida, definida segundo as funções do discurso.

A escrita do sujeito suposto saber – "eixo a partir do qual se articula tudo o que acontece com a transferência” – com as três letras S.s.S., põe em relevo uma relação entre dois termos, o sujeito e o saber. Pode-se considerar que ela precede a escrita dos matemas dos discursos que escrevem relações entre quatro termos da álgebra lacaniana, cada um deles designando uma das quatro funções do discurso: o sujeito, o significante mestre, o saber e o objeto mais-de-gozar. A elaboração dos discursos como laços sociais fundamentais estende-se por diversos anos de seminário, desde 1969 até 1974. Lacan afirma, então, que entre os seres falantes não há "outro laço senão o laço de discurso". O laço analítico seria, assim, uma fraternidade de discurso. Como entender isso? Podemos, claro, dizer que o analista e o analisante são, cada um deles, sujeitos do discurso do Outro que é o inconsciente. Mas não é só isso: a análise vai operar para cada um aquilo que ela já realizou para o outro, o advento do sujeito dividido, a radicalidade da castração.Somos, enquanto tais, filhos do discurso analítico. 
Na “Nota aos Italianos”, escrita por Jacques Lacan em 1973, é um texto breve, mas fundamental para entender sua posição sobre a psicanálise e sua transmissão. Ele foi redigido no contexto de um crescente interesse pela psicanálise lacaniana na Itália, especialmente por parte de um grupo de analistas que buscavam um contato mais direto com seu ensino.
Na década de 1970, a psicanálise lacaniana começou a se expandir internacionalmente, e Lacan foi convidado a dar conferências na Itália. No entanto, ele se mostrava cada vez mais crítico em relação às instituições psicanalíticas tradicionais, incluindo sua própria École Freudienne de Paris (EFP).
Nesse período, ele já estava elaborando a ideia do “nó borromeano”, um modelo que articulava os três registros fundamentais da psicanálise: o Real, o Simbólico e o Imaginário.
Na “Nota aos Italianos”, Lacan faz uma afirmação forte e provocadora: “Não há outra maneira de ser freudiano senão ser lacaniano.” Isso significa que, para ele, sua leitura de Freud era a única forma legítima de continuar o projeto freudiano. Ele via as instituições psicanalíticas da época como desviadas do verdadeiro ensino de Freud, tornando-se burocráticas e normativas.
Ele também reafirma que a psicanálise não pode ser reduzida a um método terapêutico ou a um saber acadêmico. Em vez disso, ela deve ser sustentada por um desejo de saber que vá além do domínio do eu.
Lacan já vinha criticando as instituições psicanalíticas há algum tempo, especialmente a IPA (Associação Psicanalítica Internacional), que ele via como um organismo burocrático preocupado mais com certificações do que com a transmissão autêntica da psicanálise.
Ele também começa a questionar a viabilidade da própria École Freudienne de Paris, que ele havia fundado em 1964. Essa dúvida culminaria, alguns anos depois, na sua decisão de dissolver a EFP em 1980.
A “Nota aos Italianos”  da ênfase no não-saber como fundamental na posição do analista. Ele alerta que o verdadeiro psicanalista não pode se contentar com um saber formal ou acadêmico, pois a experiência da análise leva necessariamente ao encontro com um buraco no saber, ou seja, com algo que escapa à compreensão.

Freud escreveu "A Questão da Análise Leiga" para responder aos críticos da prática psicanalítica pelos não-médicos e orientou, nesse escrito teórico-clínico, como designaria o chamado “leigo” em sua condição de psicanalista: um não-médico que poderia ter a designação de analista. 

O que Freud queria dizer com isso? Em primeiro lugar, que o conhecimento médico ou do psicólogo não seriam suficientes para a prática da psicanálise porque a qualificação do ofício de psicanalista não se coaduna nos moldes de certificados propostos pela Universidade; depois, porque os requisitos para a formação do analista vão além dos conhecimentos científicos e teóricos, incluindo não apenas esses conhecimentos essenciais, mas como ressalta:

“antes de tudo, somos levados à obrigação do analista tornar-se capaz, por uma profunda análise dele próprio, da recepção sem preconceitos do material analítico”

Freud nesse texto também se refere à necessidade de trocas de ideias entre jovens e velhos nas sociedades de psicanálise com o intuito de conectar tratamento e pesquisa, assim como estabelece a grande responsabilidade da delicada arte da interpretação.

Lacan propôs o dispositivo do passe apostando nessa "prova" a que se referiu Freud onde o analista, além de fundamentado na análise, estudos e supervisões, ainda assim é livre em seu movimento e sua ação. Ou seja, ainda que provas, no sentido de títulos e trabalhos reconhecidos são exigidas para o Analista Membro da Escola; a prova do passe para o Analista da Escola seria numa acepção de testemunho, comprovante de como uma análise – sua singularidade de como percorreu seu trajeto analítico.

A “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola” é um texto fundamental de Jacques Lacan, onde ele apresenta sua concepção sobre a formação do analista e introduz o dispositivo do passe. Esse texto foi escrito no contexto da École Freudienne de Paris (EFP), fundada por Lacan, e buscava responder à questão: como se reconhece um psicanalista?

Lacan critica a ideia de que um analista se torna tal apenas por meio de cursos teóricos ou pela titulação institucional. Para ele, a única prova real de que alguém se tornou analista é a sua própria análise e a experiência subjetiva dessa travessia.
Ele introduz a ideia de que o psicanalista não é nomeado por outros, mas sim reconhecido pelo efeito de sua análise. O processo pelo qual um analisante se torna analista passa pelo que ele chama de passe: um momento em que ele testemunha a experiência de sua análise diante de outros analistas.
Lacan cria o dispositivo do passe como um método para verificar se um analisante atingiu o final de sua análise e se pode se tornar analista. O processo envolve:
   •   O analisante que sente ter concluído sua análise se apresenta voluntariamente.
   •   Ele relata sua experiência a passadores, que são encarregados de transmitir esse testemunho a um grupo de analistas mais experientes.
   •   Esse grupo, chamado de cartel do passe, decide se a pessoa demonstrou, em seu percurso, um verdadeiro encontro com a estrutura do inconsciente e se pode ser reconhecida como analista.
Uma das frases mais famosas desse texto é:
“O analista não se autoriza senão de si mesmo… e de alguns outros.”
Isso significa que o analista não recebe sua autoridade de um diploma ou de um título oficial, mas sim da experiência de sua análise e do reconhecimento de sua posição por outros analistas que compartilham da mesma ética. Ele não pode ocupar esse lugar por mero desejo de poder ou de saber, mas sim a partir da experiência radical de sua análise, que o coloca diante da castração e da falta.
A “Proposição de 9 de outubro” é um marco na psicanálise lacaniana porque reformula a questão da formação do analista. Ao invés de ser uma questão burocrática ou institucional, Lacan insiste que se trata de um processo subjetivo, no qual o analisante deve atravessar sua análise até um ponto onde ele possa sustentar a posição de analista.

A clínica dos testemunhos dos AEs nomeados revela que, após a modificação do gozo, uma autorização pela via do desejo de analista advém. Seria essa prova a que Freud pede uma “legalização" contra o charlatanismo da época atualizando-se agora nos cursos de graduação de psicanálise?

Na verdade, Lacan propõe em sua Escola, seguindo a direção freudiana da análise do candidatoa analista”, que o mais importante seria levar esse sujeito a reconhecer o real da castração em sua própria análise: atravessar a experiência que o conduza ao ponto de apreender a lógica de sua fantasia fundamental e ausência de garantia no Outro. Desse modo o analista poderá colocar de lado seu gozo, perpetuado pela fantasia, para revirar a relação com o objeto a=>$

Único modo possível para acolher e preservar o discurso analítico. 

O passe é uma oferta da Escola e, ainda que esse fato não esteja ainda esclarecido para alguns colegas, não é uma obrigação dos membros de terem de se submeter à experiência, mas como ela é o âmago da Escola, todos podem partilhar do modo que quiserem: escrevendo artigos, votando nos membros dos cartéis do passe (CIG), indicando passadores, escutando os testemunhos dos colegas, enfim, sustentando a única prova de que fazemos psicanálise: articulação da clínica e Escola. 

A instituição analítica diz muito sobre o legado freudiano: ou bem se trata de um ideal a ser professado – ideal esse encarnado pelo pai idealizado e que deixa aos analistas uma posição de conforto, de abrigo, mas também de obscenidade (quem é mais amado pelo pai?) – ou, como aponta Colete Soler na proposta que Lacan escolhe com o cartel e o passe, colocando o discurso histérico (não o da histérica queixosa, mas aquele em que se pode entrar em análise buscando um saber – histerização do discurso) como o laço social entre os analistas: um discurso de identificação com a falta e que produz a transferência de trabalho.

Nos últimos depoimentos do passe fica evidente como cada um dos passantes deduziu a lógica da falta em sua análise.

Escobar relata:

“Os termos desperdicio e dejeto são termos fortes que falam do verdadeiro lugar do analista no tratamento, ele sobra como o resto da operação analítica. Para alguns, pode ser esmagador e para os outros, entre os quais me incluo, o entusiasmo que produz a cura, a nova-idade, a segunda juventude que dá a análise e a paixão que resulta quando se consegue explicar a tirania do impossível são o melhor antídoto para neutralizar a frustração de seu destino, que é advertido pela própria experiência, mas esse destino, ainda que a humanidade não queira saber é o destino de todos os seres falantes”.

 

Pedro Pablo Arévalo:

“Uma análise levada até o fim reescreve a história pessoal, produz voltas no passado, presente e futuro, de tal maneira e medida que tudo muda, e não há como voltar atrás. Tampouco ficam a nostalgia, nem o temor do gozo mais pavoroso. Assim, se passa, mas não se esquece. Tudo se recorda, mas é uma recordação-outra. É uma via estreita a da Psicanálise, mas o que se extrai dela será sempre mais vital do que a errância neurótica”.

 

Nesse tempo atual de “todos consumidores”, nos acercam na instituição as novas formas do que Freud designou de charlatanismo, ou seja, os sujeitos que querem ser analistas a qualquer custo, sem perceber de que não se trata de um título acadêmico que se consegue com alguns anos de estudo, mas, além disso, implica sempre num ato que é sempre singular. Então a equação “todos analistas”, é inverso ao postulado da Escola de Lacan, que, insistindo na sua garantia pelo dispositivo do passe, abandona o barco do discurso capitalista onde se compram títulos e comendas, para aportar no impossível de mercantilizar: o real que não engana. 

A psicanálise não é uma política, mas uma ética, uma ética do desejo que vai na contramão da política do desejo das políticas. no seminário A ética da psicanálise, propõe que o analista não é o garante do sonho burguês. O que é o sonho burguês? Permanecer no conforto. Ora, a tese de Lacan é que, para retornar à zona do desejo, é preciso renunciar aos bens, ao poder e ao conforto.

Ao mesmo tempo, pode-se deduzir daí que existe uma política da psicanálise que não pode ser baseada na ingenuidade. A ingenuidade está a serviço da ilusão de acreditar no otimismo. O entusiasmo como o afeto de fim de análise não é o mesmo que otimismo. Trata-se de um afeto que, ao contrário, supõe a queda dos falsos otimismos. Um afeto que não é a nostalgia das reivindicações de um passado melhor, nem a crença de um futuro marcado pela ideia de progresso. A política propõe a reunificação em torno de um ideal, ao passo que a psicanálise propõe a produção do um por um, o singular. Nesse sentido, é possível postular que a análise é subversiva sem ser revolucionária. A política visa ao arranjo, arranja as relações de modo a unificar as modalidades de gozo dos corpos e, para isso, fixa normas e exclui o fora da norma, ou seja, os sintomas. A ideia é que, quanto mais um sujeito se identifica com uma massa, mais ele perde sua identidade. A análise procede por um esquema oposto: para acessar o que cada um tem de mais singular, é preciso fazer um percurso que supõe a queda das identificações.

Ao extrair as identificações, o que se produz é uma queda das crenças e dos ideais. Essa é a condição de produção de um novo desejo. Percebe-se bem que a proposição ética da psicanálise vai na contramão da ética da felicidade promovida pela política. a política da psicanálise é a satisfação do desejo, mas, diferentemente da política, trata-se da satisfação de um desejo que não esteja alienado ao Outro, ou, antes, trata-se de um desejo efeito da desalienação. Resta dizer uma palavra sobre a ligação com o Outro em nossa época, marcada pelo narcisismo dos gozos sem a barreira dos ideais.

A resposta da psicanálise é que o desejo, ao final de uma análise, não é um desejo narcisista, mas um desejo advertido sobre o fato de que o gozo é do inconsciente, mas também de que não se goza do inconsciente sem o inconsciente do Outro. Por isso, a psicanálise não é uma prática que leva ao gozo autista, mas, sim, a um gozo que, embora seja de cada um, não pode ser obtido sem a implicação do inconsciente do Outro.

Portanto, a experiência do analista, experiência que é a da cura, à qual é necessário acrescentar a experiência que ele faz da doutrina, do saber analítico estabelecido e, em terceiro lugar, a experiência que ele tem do saber adquirido em sua própria cura e – isso é sobremaneira importante – as consequências que ele pode tirar desse acesso ao real que – é necessário lembrar – é na psicanálise real sexual: não há relação sexual. A arte de dizer do analista depende deste ternário do saber, do nó que se faz a partir: 

- daquilo que ele escuta nas curas que ele dirige, 

- de sua elaboração ( Durcharbeitung) a partir do saber obtido em sua cura, 

- da sua relação à doutrina analítica.

 

Ideal do bem:
Lacan critica a ideia de que a psicanálise deva conduzir o sujeito a um estado de “bem-estar” ou adaptação social. Para ele, a ética do analista não está em direcionar o analisando para um ideal normativo, mas em permitir que ele encontre sua própria posição em relação ao desejo. Izcovich, em Identidade: escolha ou destino:

“A ideia é que, quanto mais um sujeito se identifica com uma massa, mais ele perde sua identidade. A análise procede por um esquema oposto: para acessar o que cada um tem de mais singular, é preciso fazer um percurso que supõe a queda das identificações. Ao extrair as identificações, o que se produz é uma queda das crenças e dos ideais. Essa é a condição de produção de um novo desejo. Percebe-se bem que a proposição ética da psicanálise vai na contramão da ética da felicidade promovida pela política (bem comum). A questão que vale a pena se colocar, pois é fundamental, é de saber se a psicanálise promove a emergência de um sujeito indiferente à política. É isso que, às vezes, algumas pessoas criticam na psicanálise. Na verdade, trata-se do oposto. A psicanálise muda o mundo. Ela o muda de uma forma diferente da política, e é possível se questionar se ela, no fundo, não o muda até mais.”

 

 

Metáfora e letra

 Sintoma: Metáfora e Letra


A concepção de sintoma, conforme proposta por Lacan, se estrutura em torno de duas dimensões: o sintoma como metáfora e o sintoma como gozo. O sintoma enquanto metáfora se manifesta no jogo dos significantes, apresentando um sentido enigmático que é regido por leis intrínsecas à estrutura da linguagem. Por outro lado, o sintoma como gozo representa aquilo que se opõe à significação, evocando o incurável do trabalho que o sujeito realiza para enfrentar o real. 
Dessa forma, na psicanálise, o foco não se restringe à escuta, que apenas abordaria uma das faces, a do sentido enigmático — uma prática de decifração. Em vez disso, trata-se de uma leitura do que foi testemunhado pelo sujeito em relação ao acontecimento que deixou uma marca de gozo no corpo. Ao invés de buscar sentido, o analista deve, em sua ética , promover a redução do sintoma em sua dimensão semântica decifrável. Tudo isso para no final do processo analítico, o sujeito não dependa mais de suas ilusões, conseguindo identificar a lógica do sinthoma — uma letra que fixou um gozo no inconsciente - e que possa estabelecer um funcionamento que não se sustente mais ao Nome do Pai, mas que seja uma nova forma de lidar com a falta sem endereçamento ao S2. 

Palavras-chave:sintoma, metáfora, restos sintomáticos, sinthoma, letra, gozo.

O infantil e a psicanálise

  Nclínica psicanalíticareconhecemos o infantil em umdimensão que abrange muito além do tempo cronológico pois constitui a estrutura mesma de um sujeito. infantil é o que sobra na operação de castração, perda de gozo efetuada pela linguagem que só tem a chance de retornar como mais de gozo. As marcas traumáticas deixadas no aparelho psíquicono encontro com gozo do Outro e a fantasia, com sua função mediadora desse encontro com o real,são os alvos da operação analítica. O sujeito procura uma análise quando a fantasia transborda, ou seja, quando falhsua função de tela e anteparo do Outro, produzindo sintoma. O sintoma como testemunha que houve acontecimento que imprimiu um gozo, um acontecimento de corpo, mais do que a fantasia – que pode ser exprimida numa frase – guarda uma relação com o infantil, com o real. sintoma fixa uma modalidade de gozo que Lacan vai denominar como suprindo a falta da relação sexual que não existe e no final, pode trocar sua fixação à marca traumática de gozo por uma fixação à letra do seu sintoma.

Palavras-chave: infantil, marcas traumáticas, fixação, fantasia, sintoma, gozo.

 

Saber fazer com o sintoma

 Saber fazer com o sintoma

Jacques Lacan, em seu retorno a Freud, estudará os conceitos clínicos de inibição, sintoma e angústia à luz de sua teoria dos três registros: o Imaginário, o Simbólico e o Real. No Seminário 10 – A angústia, esses fenômenos são explorados como formas distintas de relação do sujeito com o desejo, a linguagem e o gozo. O desenvolvimento teórico de Lacan, no entanto, não permanece estático. No Seminário 23 – O sinthoma, já em seu ensino tardio, o sintoma ganha outra função: de mensagem a ser decifrada, torna-se um modo singular de amarração do sujeito ao real. É esse percurso teórico que analiso, articulando os três conceitos clínicos aos registros lacanianos, e desdobrando sua transformação no conceito de sinthoma.

Freud propõe, em Inibição, sintoma e angústia, uma diferenciação conceitual que responde às limitações do funcionamento psíquico diante do conflito intrapsíquico. A inibição é concebida como uma restrição funcional do eu, que não implica, necessariamente, a presença de um conteúdo recalcado. Ela se dá, por exemplo, nas dificuldades de leitura, fala ou trabalho intelectual (Freud, 1926/1996). Lacan no Seminário 10 também aponta que está sempre na função do eu e, a situa no campo do Imaginário, onde o sujeito se vê capturado na relação com sua imagem e nas identificações narcísicas. Trata-se, portanto, de uma perturbação que incide sobre a consistência do eu e sobre o corpo como imagem, impedindo sua livre expressão no laço social.

No mesmo seminário, Lacan reafirma o estatuto do sintoma como formação do inconsciente, situado no registro do Simbólico. O sintoma, como em Freud, é interpretável, decifrável, portador de sentido, mesmo que enigmático. Assim, o sintoma responde à lógica do significante: é um efeito da linguagem sobre o corpo, e seu tratamento se dá pela via da interpretação, do desvelamento de um saber inconsciente articulado em palavras.

Diferentemente da inibição e do sintoma, a angústia é situada por Lacan no campo do Real, pois ela não engana— não se trata de uma formação do inconsciente, mas de um afeto que emerge quando o sujeito se vê confrontado com o que escapa à simbolização: o objeto a. É o que aparece quando o objeto a, causa do desejo, se apresenta em lugar de faltar. Ao contrário do medo, que tem um objeto nomeável, a angústia revela o furo no simbólico, a presença do gozo que irrompe como excesso. É neste ponto que a experiência do sujeito colapsa — não mais mediada pelo significante, mas atravessada por algo do corpo que não se representa.

Pollo (2022 p. 115) observa que desde o Seminário 10 “pode-se perceber que o sintoma, embora simbólico, se faz acompanhar pela emoção, imaginária, e pode desembocar em acting out, que visa o Outro real”.

A partir dessa reformulação, Lacan desloca a clínica do sentido à clínica do gozo. O sintoma já não é apenas uma formação de compromisso, mas uma resposta do sujeito à intrusão do gozo, ao impossível de ser simbolizado. Esse deslocamento prepara o terreno para o conceito de sinthoma, trabalhado no final de sua obra.

No Seminário 23 (1975–1976/2007), Lacan introduz a grafia arcaica "sinthoma" para marcar uma distinção crucial: o sinthoma não se presta mais à decifração simbólica como na clínica clássica, mas se configura como uma invenção singular do sujeito para sustentar-se no real. O sinthoma é aquilo que permite ao sujeito amarrar os três registros — real, simbólico e imaginário — quando a função do Nome-do-Pai está falha ou foracluída.

O caso paradigmático trabalhado nesse seminário é o de James Joyce, cuja escrita teria funcionado como suplência do Nome-do-Pai.  Lacan desenvolve a tese de que Joyce, ao escrever sua obra, elaborou uma forma de costura subjetiva que enodou os três registos ao seu sinthoma. Seu estilo literário, marcado pela opacidade do sentido, pela proliferação de jogos de palavras e neologismos, não visa comunicar, mas amarrar o gozo à letra, produzir um corpo de escrita que sustenta sua posição como sujeito.

Em vez de buscar sentido no sintoma, como na tradição analítica anterior, Lacan propõe uma torção clínica: o sinthoma não se interpreta — sustenta-se. Não é mais o saber recalcado que retorna como enigma, mas o sinthoma como saber-fazer, ou seja, uma prática singular do sujeito com o seu modo de gozar. A distinção sintoma/sinthoma conforme Rithée Cevasco “correspondem, respectivamente, à diferença entre “aquilo que cai” e “aquilo que enoda”, faz laço amarra” Vera Pollo os distingue entre “o que o faz o sujeito sofrer e o isola do laço social e aquilo que, ao contrário, o inscreve ou inclui no social” (Pollo, 2022, p.117).  

A trajetória conceitual que parte da inibição e do sintoma freudiano, atravessa a angústia como sinal do real, e culmina no sinthoma como borda de gozo, revela o deslocamento da psicanálise de uma ética da verdade para uma ética do real. Enquanto o sintoma freudiano se prestava à leitura e à interpretação como vias de cura, o sinthoma lacaniano se sustenta como um saber-fazer com o impossível.

Essa passagem do saber-sintoma — onde o inconsciente estrutura-se como linguagem — ao saber-fazer com o sinthoma aponta para uma clínica orientada não mais pela restauração simbólica do sujeito, mas por sua invenção singular diante do irredutível do gozo. A escrita de Joyce ilustra esse ponto de maneira exemplar: o sinthoma como estilo, como obra, como letra que sustenta um corpo e um nome. Assim, não se trata mais de curar o sintoma, mas de saber fazer com ele - com arte, linguagem e existência.

 

Referências

Freud, S. (1996). Inibição, sintoma e angústia (J. Salomão, Trad.). In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 20, pp. 77–176). Imago. (Original publicado em 1926)

EPFCL Brasil (2022) O sintoma e o psicanalista: topologia, clínica, política. Aller: São Paulo.

Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: A angústia (M. B. Magnabosco, Trad.). Jorge Zahar. (Original publicado em 1962–1963)

Lacan, J. (2007). O seminário, livro 23: O sinthoma (Laia, S. Trad.). Zahar. (Original publicado em 1975–1976)

Trauma e fantasia

 Trauma e fantasia - seminário FCL Aracaju

Alba Abreu Lima 

 

 La língua, traumática:
lalíngua é feita de uns significantes soltos, marcados pela pura diferença, que não constroem sentido como na linguagem estruturada (gramática), mas produzem marcas e gozo no corpo do sujeito. O que deixa marcas é o contato com o corpo do outro, mas essas marcas só serão simbólicas se ordenadas pela linguagem. É essa função translinguística, pulsional e não-comunicativa que está no cerne da teoria lacaniana do inconsciente nos últimos seminários.
A “LALÍNGUA É A INTEGRAL DOS EQUÍVOCOS POSSÍVEIS” 

1. Lalíngua não é um sistema linguístico
Diferente dlingua (a língua estruturada, como o francês ou o português), a lalangue é um conjunto amorfo de sons, restos, trocadilhos, lapsos e marcas corporais, um campo do gozo. Ela não tem regras gramaticais ou sintáticas.
      é aquilo que o sujeito ouve antes de poder falar e ter um sentido.
      São pedaços de linguagem que entram no corpo e deixam marcas de gozo, muitas vezes traumáticas.
2. Quando Lacan diz: “Integral dos equívocos” = é uma totalidade de todos os deslizamentos de sentido
Na matemática, uma “integral” é uma soma contínua. Lacan usa esse termo ironicamente para dizer que lalínguainclui todos os sentidos possíveis, mesmo os mais absurdos, contraditórios ou imprevistos — tudo o que pode dar errado ou deslizar no uso da linguagem.
      Os equívocos são centrais na prática analítica: eles revelam o inconsciente.
      No equívoco, o significante escapa ao controle do sentido e revela outra coisa — o desejo, o gozo, o trauma.
Exemplo: Um lapso, um trocadilho ou um erro de escrita/fala pode ter vários sentidos simultâneos, todos ressoando como efeitos de gozo.
3. lalangue como fonte de gozo e não de comunicação
Lacan insiste que a linguagem não serve primordialmente para comunicar, mas para marcar o corpo e produzir gozo. É por isso que lalíngua é tão importante:
      Ela é o repositório dos equívocos que fundam o sujeito.
      Cada sujeito tem sua lalínguaprópria, feita de como ele ouviu os significantes da linguagem no início da vida (vozes, sons, traços de linguagem parental).

LALÍNGUA É:
      A massa sonora da linguagem que o sujeito recebe antes da entrada no simbólico.
      A soma aberta de todos os possíveis sentidos, equívocos, lapsos e deslizes.
      O lugar onde o significante se separa do significado, e o gozo aparece como resto.
Função clínica: Revelar o inconsciente pela escuta do que escapa ao sentido consciente.
 1. A escuta analítica: não é somente pela mensagem, decifrar é extrair uma série de sigtes do material do analisante sobre o sintoma, mas além da decifração, a interpretação é pelo equívoco.
Na psicanálise lacaniana, o analista não escuta para entender o que o paciente diz, mas para ouvir o que escapa ao paciente — o que ressoa como gozo ou desejo inconsciente.
lalíngua é o lugar onde isso aparece:
 Nos trocadilhos involuntários,
 Nos lapsos de fala,
 Nas repetições sem sentido aparente,
 Nos erros gramaticais ou palavras inventadas.
Esses “desvios” não são ruídos acidentais, mas manifestações do sujeito dividido pelo inconsciente.
 2. O equívoco como operador de verdade do sujeito
Lacan dizia: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, mas nos últimos seminários, ele radicaliza: O inconsciente não fala uma língua lógica; ele ressoa em equívocos, pois é feito de lalíngua. Lalangue não tem nada a ver com o dicionário: diferentemente do simbólico, lalanguenão é um corpo , mas uma multiplicidade de diferenças que não tomou corpo, não existe ordenamento.


Na prática clínica:
      Um sujeito diz: “Minha mãe era muito presente.”
Mas ao dizer isso, deixa escapar uma sonoridade que lembra “presa”. O analista pode escutar nisso algo do desejo inconsciente: estar preso à mãe.
      Paciente diz “eu não sirvo pra nada” : servir ou ser vil — é aí que o gozo se revela. O equívoco permite que o significante escape ao controle do eu e se revele como verdade do desejo.
 3Mas a interpretação analítica deveoperar com a lalíngua:

Os significantes mestres determinam a conduta de um sujeito e as vezes uma análise leva muito tempo para que um sujeito possa captar o que operou como significante mestre em sua existência. Ainda assim existem as repetições, pq há um indizível, fora de sentido, que faz a objeção da captura pela palavra e que faz o sujeito vibrar um gozo que resiste à captura significante.
A interpretação além da decifração – se nos dirigimos ao analista para procurar um sentido novo e se o analista está advertido de que o sentido faz ploriferar o sintoma, deve se abster de dar sentido? 

É nisso que Lacan insiste que o analista deve evitar compreender, é sua advertência contra o sentido.

A exploração das formações do inconsciente implica em levar em conta sua dimensão enigmática e, ao mesmo tempo, seu caráter irredutível. Freud percebeu os limites da interpretação

A interpretação lacaniana não explica, mas remaneja o fora-de-sentido. O sentido seria a copulação do Simbólico e Imaginário, e a orientação do Real – o alvo da análise – deve levar o sujeito a encontrar uma falha entre S e I, o que não acontece sem angústia. Por exemplo, num caso de neurose obsessiva a análise extrai o sujeito da dúvida e ele encontra a angústia = caminho inverso da produção do sintoma. Enquanto o sintoma é um modo de se proteger da angustia, a análise desfaz essa solução.
a interpretação que pode ressoar pode ser:
      Um gesto,
      Uma pontuação (interrupção),
      Um trocadilho inesperado,
      Uma repetição de uma palavra com outra entonação.
Tudo isso visa fazer o sujeito ouvir o que ele mesmo disse sem saber que disse — algo que emerge da sua lalíngua, não do seu discurso consciente.
A função da interpretação é tocar o gozo e descolar o sujeito do sentido cristalizado.
 4. Repetição: sinal de gozo fixado na lalíngua
Na clínica, os sujeitos repetem modos de falar, de sofrer, de desejar, mesmo que isso os faça sofrer.
Isso é porque a lalíngua está feita de traços que se fixam como gozo, muitas vezes traumático.
A escuta do analista tenta localizar esses “uns” de gozo para que algo do sujeito possa se descolar deles, deslocar.
 5. O sintoma como escrita da lalíngua
No final do ensino, Lacan dirá que o sintoma é uma escrita singular da lalíngua.
Ou seja: cada sujeito tem um modo particular de se organizar em torno dos equívocos que marcaram seu corpo.
A análise visa:
      Fazer o sujeito ouvir a sua lalíngua.
      Produzir um saber-fazer com seu sintoma, sem necessariamente eliminá-lo, mas esvazia-lo.
      Abrir espaço para um uso mais livre e menos repetitivo da linguagem e do desejo.

Diferentemente dlalíngua , a língua é"Morta, ele se refere ao fato de que a linguagem não é viva no sentido de subjetiva ou espontânea. Ela não pertence a ninguém especificamente. Ela é uma estrutura fixa, externa ao sujeito. Por isso, ao usá-la, estamos sempre lidando com significantes que já existem, que já carregam sentidos estabelecidos e que nos falam mais do que falamos com eles.

A linguagem nos fala — somos seus efeitos, não seus senhores. Para Lacan, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Mas essa linguagem inconsciente também funciona com significantes que vêm de fora, do Outro (o campo social, cultural, familiar). Assim, o inconsciente não fala uma "língua viva" pessoal, mas sim uma espécie de arquivo morto de significantes herdados, a linguagem falha em dar conta do real. O que está em jogo é que a linguagem nunca diz tudo, sempre escapa algo — o real, o gozo, o desejo. Isso também faz com que a língua seja “morta”: ela é insuficiente, incapaz de capturar plenamente a experiência.

 

CLINICA FREUDIANA
O CASO DO “HOMEM DOS RATOS” é um dos casos clínicos mais famosos de Freud (publicado em 1909) — e ao relê-lo à luz de Lacan e da lalíngua, podemos ver como os equívocos da linguagem revelam o gozo, o sintoma e o desejo inconsciente do sujeito.
O paciente era um jovem advogado vienense, com sintomas obsessivos intensos — pensamentos intrusivos, rituais mentais, e sobretudo uma fantasia sádica: uma tortura com ratos que havia escutado de um oficial do exército. Apesar do horror dessa fantasia, ele gozava dela inconscientemente, e ela o prendia a uma ambivalência violenta com o pai e com o desejo sexual.
 O que Lacan destaca no caso (Seminário 1 e 10):
Lacan leu esse caso profundamente e o retomou várias vezes. Ele o considera um caso exemplar do neurótico obsessivo, e mostra como o sujeito está preso ao significante, à letra, ao gozo da linguagem — tudo isso que mais tarde será formalizado com o conceito de lalíngua.
 A fantasia dos ratos: um equívoco significante
A famosa fantasia relatada era a seguinte: uma tortura que consistia em amarrar uma pessoa e soltar ratos famintos que roem o ânus ou os intestinos. O paciente ouve isso e:
      Se horroriza e se excita.
      Não consegue parar de pensar naquilo.
      Fica obcecado com a possibilidade de que o pai e a mulher que ama sejam vítimas dessa tortura.
Aqui já temos o material bruto da lalíngua:
 Um significante brutal (“rato”),
 Uma cena escatológica e sádica,
 Uma mistura de gozo e sofrimento,
 Uma marcação sonora e corporal, não racional.
 Lalíngua em ação: o gozo do equívoco
O que Lacan propõe — especialmente quando lemos esse caso à luz de sua teoria tardia — é que o significante “rato” atua como um “um” de lalíngua.
Esse significante:
      Soa como “Rate” (em alemão, “rato”, mas também “dívida”), o que associa o episódio à dívida que o paciente tinha que pagar.
      Traz um jogo entre “raten” (adivinhar) e “Ratte” (rato).
      Liga-se também a fantasias de punição anal, campo central do gozo obsessivo.
A partir disso, podemos dizer que o sujeito não está falando da realidade dos ratos, mas do que o significante “rato” reverbera no seu corpo e no seu gozo — e isso é lalíngua: o resto de sentido que não se resolve nem se traduz, mas que se repete e insiste.
 Equívocos e ambivalência: pai, desejo e punição
O paciente tem:
      Desejo amoroso pela mulher, mas se culpa intensamente.
      Uma relação ambivalente com o pai: ama e odeia, deseja sua morte e teme seu julgamento.
      O sintoma aparece como uma forma de pagar uma dívida simbólica, por desejar demais, por desejar o que “não pode”.
Nesse emaranhado, a fantasia dos ratos funciona como um ponto de gozo: ele sofre, mas goza do sofrimento.

 CONEXÃO COM LALÍNGUA:
Elemento Leitura pela lalíngua
“Rato” / “Ratte” Significante ambíguo, equívoco entre “animal”, “dívida”, “castigo anal”
Fantasia da tortura Gozo encoberto, marca sonora traumática, fixação de lalíngua
Ritual obsessivo Tentativa de tamponar o gozo que retorna como equívoco significante
Repetição Retorno de “uns” de gozo que não se integram ao sentido

O caso do Homem dos Ratos, relido com Lacan, mostra como o inconsciente fala pela lalíngua:
      Não pelo discurso claro e consciente,
      Mas pelos equívocos, lapsos, repetições e gozos que escapam à lógica.
O analista, ao escutar esses pontos de falha do sentido, atua não como decifrador, mas como escutador da lalíngua — ajudando o sujeito a ouvir o que dele mesmo escapa.

O CASO DO HOMEM DOS LOBOS (publicado por Freud em 1918) é talvez o mais enigmático e literário de todos os casos freudianos — e relido com Lacan (especialmente nos seminários 10, 11, 17 e 23), ele se revela como um caso exemplar da lalíngua em ação: equívoco, gozo, trauma e sintoma se entrelaçam no núcleo da linguagem.
 1. Quem era o Homem dos Lobos?
      Nome real: Serguei Pankejeff, aristocrata russo.
      Sofria de depressão, inibições, distúrbios corporais, angústias e obsessões.
      Seu sintoma mais marcante: um sonho de infância aterrorizante com lobos sentados numa árvore olhando para ele.
Freud interpreta esse sonho como a recordação deformada de uma cena primária (a visão dos pais fazendo sexo), ocorrida antes dos 2 anos de idade.
 2. A cena do sonho: o enigma da linguagem
O sonho (aos 4 anos):
“Estava na cama. De repente a janela se abriu sozinha e vi, lá fora, seis ou sete lobos brancos, sentados num galho de árvore. Eles estavam parados, me olhando com olhos fixos. Fiquei com muito medo de que eles me comessem.”
Este sonho causa uma marcação traumática duradoura. Para Lacan, ele não é uma lembrança, mas uma estrutura, um significante opaco e repetitivo que marca o sujeito.

 3. A lalíngua no coração do sintoma
Vamos agora reler isso à luz da lalíngua, como Lacan propõe especialmente no Seminário 23 – Le sinthome:
a) Equívoco sonoro: Wolf / Wolfmann / Wolf = Vol
      O paciente era chamado de “Wölfchen” (lobinho) na infância.
      Freud escreve o caso em alemão — e “Wolf” é “lobo”.
      Em russo, porém, “вол” (pronunciado “vol”) significa “boi”, e o russo da época escrevia em cirílico.
      Isso já nos dá um campo de resonânciaentre línguas — um campo de lalíngua: Wolf (alemão) ≠ Vol (russo), mas ambos ressoam, criando equívocos inconscientes.
Essa diferença não é racional, mas ressoa no corpo e na fantasia do sujeito.
b) Equívocos com “ver” e “ser”
O sonho envolve ver os lobos (e ser visto por eles). Lacan nota que esse jogo entre “olhar” e “ser olhado” está no centro do gozo do sujeito.
      O sujeito está passivo: olhado pelos lobos.
      Mas no nível do gozo, há também o desejo de ver a cena primária, e talvez até de ser o lobo (o pai).
Isso é típico do funcionamento da lalíngua: um significante que escapa do controle, como “ver” ou “wolf”, que se transforma em diversos sentidos — ver, ser visto, ser ameaçado, ser devorado, ser lobo, ser pai, ser animal, etc.
 4. O lobo como significante do gozo
Para Lacan, o lobo não representa apenas o pai ou o medo. Ele é um significante de gozo — uma figura que carrega uma marca não traduzível, que retorna como repetição e como corpo afetado.
      O lobo é um “um” de lalíngua: um significante que fixa um gozo no corpo.

      Por isso, o sujeito volta sempre ao mesmo ponto: o lobo é uma escrita do sintoma, uma espécie de “sinthome”, como Lacan chamará nos últimos seminários.
Freud diz que o paciente teve uma neurose infantil em torno da cena primária, mas Lacan mostra que, além disso:
      Há uma falha no simbólico, uma foraclusão parcial do Nome-do-Pai.
      Em vez de uma significação clara da cena, o sujeito fica preso a um significante opaco — o lobo — que retorna como enigma e gozo.
      Isso é próprio da lalíngua: não simboliza, mas insiste, não comunica, mas goza.
 Conexão com lalíngua:
Elemento Leitura pela lalíngua
“Lobo” / “Wolf” / “Vol” Significante ambíguo, equívoco entre línguas, fixação de gozo
Sonho dos lobos Cena significante marcada pelo enigma, não pelo conteúdo
Ser olhado / ver Equívoco que estrutura o desejo e a angústia
Sintoma Escrita singular de um gozo não simbolizável
Nome-do-Pai Falha parcial que deixa o sujeito à mercê do significante sem sentido.
 Conclusão:
O caso do Homem dos Lobos, relido com Lacan, mostra como o inconsciente não é um lugar de verdades escondidas, mas um campo de restos de linguagem — de lalíngua.
O sintoma do paciente não é um erro a ser corrigido, mas uma escrita singular de equívocos, de significantes que ressoam com o gozo do corpo — e é essa escrita que a análise visa tocar, desatar, ou ao menos fazer funcionar de outro modo.

Joyce é absolutamente central para Lacan nos seus últimos seminários, sobretudo no Seminário 23: Le Sinthome (1975-76). Ali, Lacan deixa claro: Joyce não é apenas um escritor excepcional, mas um caso clínico — e um caso-limite.
Joyce não é neurótico, nem psicótico, nem perverso — ele cria um quarto termo: o “sinthome”.
E essa criação se apoia diretamente na força da lalíngua, na escrita, nos equívocos, na forma como o significante marca o corpo.
 1. Por que Lacan se interessa por Joyce?
      James Joyce (1882–1941) foi um escritor irlandês revolucionário — autor de Ulisses, Retrato do Artista Quando Jovem e Finnegans Wake.
      Ele explodiu a linguagem literária, rompendo com gramática, sentido linear, pontuação, narrativa, etc.
      Sua escrita é feita de trocadilhos, sobreposições de línguas, sons inventados, aliterações, neologismos — exatamente como Lacan define a lalíngua.
Em vez de tentar dar sentido ao mundo, Joyce escreveu no lugar do sintoma — fez de sua obra um modo de gozar, um sinthome no sentido mais radical.
 2. O que é o “sinthome”?
Lacan retoma a palavra arcaica “sinthome” (grafia antiga de “symptôme”) para nomear algo além do sintoma neurótico ou psicótico.
sinthome é:
      Um nó de gozo singular, uma escrita própria do sujeito.
      Algo que não se interpreta, não se desfaz, mas se sustenta como suplência estrutural.
      Uma invenção do sujeito para sustentar seu corpo e seu ser, frente ao real que não se simboliza.
Em Joyce, o sinthome é sua escrita literária: ela ocupa o lugar do Nome-do-Pai foracluído, que normalmente garantiria a inscrição do sujeito no simbólico.
 3. A foraclusão do Nome-do-Pai
Lacan diz que Joyce tem algo da estrutura psicótica, mas não entra em surto.
Por quê?
Porque ele “se nomeia a si mesmo” através da escrita:

Ele substitui a função paterna com a assinatura, com a obra. Ele “se faz um nome”, e esse nome próprio (“Joyce”) o estabiliza.
Isso é clinicamente decisivo:
      Para o neurótico, o Nome-do-Pai regula o desejo e dá um lugar no mundo simbólico.
      Para o psicótico, o Nome-do-Pai está foracluído — há um buraco, um colapso simbólico.
      Joyce supriu essa foraclusãoescrevendo, ou seja: se fez sinthome.
 4. Lalíngua em Joyce: onde aparece?
Joyce é pura lalíngua. Seu estilo é feito de:
      Trocadilhos entre línguas: inglês, latim, francês, gaélico, alemão, etc.
      Invenção de palavras (“bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk!”).
      Equívocos, neologismos, ruídos de linguagem que evocam corpo, gozo, infância, morte.
PARA LACAN, ISSO NÃO É LITERÁRIO, É CLÍNICO: JOYCE NÃO ESCREVE PARA COMUNICAR, MAS PARA MANTER-SE INTEIRO COMO SUJEITO.
É exatamente o que Lacan define como lalíngua:
Um material sonoro, pulsional, equívoco, que toca o corpo e produz gozo
 . Joyce, sinthome e clínica: o que aprendemos?
Lacan usa Joyce como modelo de suplência — uma forma de lidar com o real sem passar pelo Nome-do-Pai.
Na clínica, isso tem efeitos:
Estrutura tradicional Joyce / sinthome
Nome-do-Pai sustenta o sujeito Sinthome(escrita, arte, criação) sustenta o sujeito
Sintoma como mensagem cifrada Sinthomecomo gozo estabilizador
Inconsciente estruturado como linguagem Inconsciente como lalíngua, puro real do gozo
A análise interpreta A análise pode ajudar o sujeito a “fazer com” o sinthome

CONCLUSAO
O objetivo analítico passa a ser não interpretar o sintoma, mas permitir que o sujeito faça uso dele como sinthome — um modo de habitar o gozo sem colapsar.
Em Joyce
Lalíngua: Escreve com os equívocos do som, do corpo, do gozo
Sinthome: A escrita como suplência ao Nome-do-Pai foracluído
Nome-do-Pai: Foracluído, substituído pelo “fazer nome” (Joyce como nome próprio)
Gozo: Não é recalcado, mas escrito, espalhado em toda a obra
Função clínica: Nos mostra que nem tudo precisa ser interpretado: às vezes é preciso sustentar o sinthome.

CLINICA:

Lacan introduz essa mudança progressivamente:
      O analista era, na primeira clínica, aquele que encarna o sujeito-suposto-saber: o sujeito atribui a ele um saber sobre seu desejo.
      Mas a posição ética do analista é justamente não saber, não querer bem, não preencher o furo, não dar sentido.
Na clínica do sinthome, o analista é antes:
Um operador da função do objeto a — um “resto”, um vazio que causa e permite a invenção.
Ele se torna:
      Um “semblante” do objeto a, ou seja, um lugar de queda, de resto, de furo.
      Alguém que não interfere com o saber, mas que sustenta o espaço onde o sujeito pode escrever seu modo próprio de gozar.

 3. O nó borromeano como nova topologia clínica
Lacan desenvolve no Seminário 23 a ideia de que o sujeito é feito de três registros: Real, Simbólico e Imaginário, amarrados em um nó borromeano.
      Quando esses registros não estão bem enodados, o sujeito sofre: há angústia, desencadeamento, sintoma desorganizado.
      sinthome aparece como o quarto nó que amarra os três.
 Função do analista, então?
Permitir ou apoiar a invenção desse quarto nó.
Não é resolver, não é interpretar — é “fazer nó”, ou permitir que o sujeito faça com esse resto.
 O caso Joyce como modelo clínico
      Joyce, sem Nome-do-Pai operante, não teve psicose franca porque sua escrita funcionou como sinthome.
      Ele se “fez um nome” — “Joyce, o artista” — e com isso, estabilizou-se.
      Lacan afirma: “Joyce se identificou com seu sinthome.”
Logo, a função do analista passa a ser:
Não interpretar o sintoma, mas permitir que ele vire sinthome, ou seja, que se inscreva como escritura de gozo que não desorganiza o sujeito.

O analista como operador de lalíngua
A função do analista, diante da lalíngua, é não recusar os equívocos, mas escutá-los até que eles deixem de ser enigma e se tornem uso.
      A análise não visa eliminar os restos de lalíngua.
      Ela visa permitir que o sujeito faça um uso desses restos — escrevendo, nomeando, ou simplesmente vivendo com eles de forma menos dolorosa.
 Conclusão
A virada para o sinthome transforma a clínica:
O analista não é mais o intérprete do sentido inconsciente, mas o acompanhante de uma escrita singular do gozo — alguém que sustenta o ponto em que o sujeito pode “fazer-se com” o que há de mais íntimo, de mais real e de mais inassimilável.
“O inconsciente é estruturado como uma linguagem.”
Mas o real do gozo é escrito com a lalíngua.
E o sinthome é a forma singular com que cada um escreve esse gozo.
+ caso clínico:
 CASO: “Sr. M” – O homem que odiava seu nome
Apresentação
Sr. M, 34 anos, professor universitário, procura análise por causa de inibições na escrita acadêmica, crises de angústia ao falar em público e um sentimento persistente de “falsidade”, como se estivesse sempre “atuando”.
Ele relata que, ao tentar escrever ou falar com autoridade, sente um vazio súbito, uma sensação de que vai ser exposto como impostor. Sofre com insônia, lapsos de memória, e um tique discreto no olho esquerdo que se intensifica quando está sob pressão.
1. Primeiros significantes: o nome próprio como resto
Na anamnese, surgem fatos que indicam um desconforto radical com o próprio nome:
“Odeio meu nome. Parece inventado, pomposo, me separa dos outros.”
“Na escola, zombavam: ‘M de merda’, ‘Sr. M de Mentira’.”
Descobrimos que seu nome é o mesmo do pai e do avô — transmissão nominal rígida:
Mário Monteiro Martins.
Ele mesmo o chama de “eco ridículo, como uma falha de software”.
 Aqui surge a marcação de lalíngua:
      “M de merda”, “M de mentira”, “M de mudo”, “M de morto”.
      A letra M se torna um resto gozado, que insiste como trauma sonoro e corpo afetado (tique, paralisia da fala).
2. Um sintoma que resiste à interpretação
Tentativas interpretativas iniciais (“o nome como peso paterno”, “o significante do pai que não foi assumido”, etc.) não ressoam para o sujeito.
Ele mesmo diz:
“Sei o que Freud diria. Mas isso não muda nada. Meu problema não é saber: é que… meu nome me dói.”
Essa resposta marca um ponto de real: um saber não-sabido, mas sentido, que resiste à interpretação.

É aqui que entra a clínica do sinthome:
Em vez de decifrar, o analista sustenta o espaço para que o sujeito escreva algo com isso.
Da escuta ao nó: o analista como operador do real
Ao longo do percurso analítico:
      O sujeito começa a brincar com o nome, a criar assinaturas absurdas, siglas, avatares digitais com variações do “M”.
      Escreve num blog anônimo usando o pseudônimo “Monsieur M.”, onde publica pequenos textos fragmentários, irônicos, poéticos.
Um dia diz, sorrindo:
“Descobri que o M também pode ser de mascarado. Ou de mártir. Ou de milagre.”
Ele passa de nome que o castra, para nome que pode ser jogado, desdobrado, lido de forma equívoca — não mais como vergonha, mas como modo de gozo possível.
O sintoma virou sinthome:
O significante opaco não desaparece, mas ganha uma função de amarração subjetiva.
. Nome, lalíngua e gozo
Com o tempo, ele relata que o tique diminui, que fala com mais fluidez — e escreve, inclusive, um artigo com o título:
“M de mim: escrita, nome e falha”
Esse gesto marca a inscrição de um nome próprio reinventado. O nome herdado não é apagado, mas reescrito como marca singular.
O analista não “interpretou o M” — mas sustentou o vazio, o nonsense, o jogo com a lalíngua, até que o sujeito produzisse uma forma própria de enodamento.
 Ação do analista
Apresentação do sintoma \Escuta sem pressa de sentido; acolhe o mal-estar como sinal do real\Rejeição da interpretação \Não insiste no saber; suspende o saber suposto\Emergência do jogo com lalíngua\Sustenta a deriva equívoca do significante, sem fechá-lo\Escrita do sinthome\Reconhece o surgimento de um uso do sintoma; não o corrige, não o analisa, mas o permite
 Conclusão clínica
O caso ilustra que nem todo sintoma deve ser dissolvido. Às vezes, é o próprio modo do sujeito existir, desde que ele consiga assumir e escrever essa marca do gozo.
A função do analista, na virada para o sinthome, é permitir que o sujeito se torne autor de seu próprio modo de habitar o impossível.
Como Lacan disse em Le sinthome:
“O artista nos precede no caminho da análise. Joyce nos mostra que o sinthomepode ser feito, pode ser escrito.”
A linguagem, no discurso do analista, não é usada para compreender o sujeito, mas para levar o sujeito a confrontar-se com o que escapa à compreensão.
O analista opera:
      Não com empatia, mas com hiato
      Não com interpretação constante, mas com cortes e atos
      Não com o sentido, mas com o gozo que se escreve como letra ou sinthome
“O analista não fala para preencher, mas para fazer ouvir o furo.”
2. Contos infantis como espaço da lalíngua
Os contos infantis não falam ao consciente, mas interpelam o inconsciente.
 Chapeuzinho Vermelho
      O lobo diz palavras doces, mas devora a menina.
      A linguagem do lobo é sedutora e enganosa — como a lalíngua: diz uma coisa, goza outra.
      “Que olhos grandes você tem” — o olhar como objeto de gozo (objeto a).
      A fala do lobo funciona como significante equívoco que leva ao real da morte/devoração.
 Aqui, o discurso parece simbólico (“sou sua vovó”), mas encobre um real pulsional.
 João e Maria
      Crianças abandonadas pelos pais retorno da falha do Outro.
      A bruxa vive numa casa de doces gozo oral, excesso, gozo que atrai e devora.
      João é engordado — mas o que engorda é o discurso doce da bruxa.
 O conto encena a fala que nutre e ao mesmo tempo devora, como o gozo da lalíngua materna.
 O patinho feio
      O sujeito nasce “errado”, deslocado no sistema simbólico (a família dos patos).
      Carregado de traços sonoros e significantes de exclusão (“feio”, “errado”, “grande demais”).
      Encontra-se no final não por sentido, mas por identificação com a imagem imaginário como borda do real.
 Aqui, a lalíngua são os nomes que o marcam antes de ele saber quem é.
Os contos infantis falam a linguagem do inconsciente: não são para entender, são para gozar, marcar, inscrever no corpo do sujeito os efeitos da fala.
Eles se ligam à lalíngua porque:
      Usam o som antes do sentido
      Produzem efeitos de verdade pelo equívoco
      Articulam gozo, desejo, medo e fantasia
      Funcionam como escritas precoces do sintoma
“O Flautista de Hamelin” é um conto extraordinário para pensar os efeitos da lalíngua, pois ele articula som, gozo, perda e marca — tudo aquilo que Lacan situa como fora do sentido, mas profundamente eficaz.
Na cidade de Hamelin, infestada por ratos, surge um estranho flautista que promete resolver o problema em troca de pagamento. Ele toca sua flauta e, com seu som, encanta os ratos, que o seguem até o rio e morrem afogados.
Os habitantes se negam a pagar o prometido.
O flautista retorna e, dessa vez, toca sua música para as crianças da cidade, que o seguem hipnotizadas para fora dos muros e nunca mais retornam.
 1. O som antes do sentido  lalíngua pura
A flauta não fala, não diz nada — mas comanda o corpo.
Essa é a estrutura fundamental da lalíngua:
      É som que goza, som que marca o corpo sem passar pelo significado.
      A música não comunica  ela arrasta, captura, encanta, como o significante que escapa ao sujeito e o determina.
A flauta não precisa ser entendida. Ela afeta.
2. A falha do contrato simbólico
O pacto com o flautista é rompido.
A cidade não paga  o simbólico falha.
E quando o simbólico falha, o que retorna?
O real do gozo: as crianças são levadas como que por um significante que não se inscreve na Lei, mas no corpo.
É o que ocorre na psicose ou no sinthome:
Quando o Nome-do-Pai é foracluído ou falha, o gozo retorna no real, sem mediação simbólica.
O flautista não é o pai — ele é o gozo fora da Lei, aquele que não aceita a metáfora, apenas a marca.
 3. O significante que leva embora
A música do flautista funciona como um significante sem significação, como uma letra de lalíngua:
      Marca o corpo (faz andar, seguir, desaparecer)
      Não é decifrável (ninguém entende por que as crianças o seguem)
      É pura função de gozo (encantamento, perda, hipnose)
Como em lalíngua: é um som que se gruda ao sujeito, o comanda, o arrasta para o fora-do-simbólico.
 4. O real da perda: o trauma
No final do conto, resta:
      O sujeito dividido: os adultos que perderam os filhos, traumatizados.
      O furo no simbólico: algo aconteceu e não pode ser simbolizado.
      Uma marca que funda a memória da cidade.
Essa é a estrutura do trauma: um significante que não foi inscrito na cadeia simbólica, mas que retorna como real, como fenda, como eco de um som perdido.
O Flautista de Hamelin encarna o poder da lalíngua:
Um som sem sentido que age sobre o corpo, que quebra o pacto simbólico e que leva consigo o que há de mais precioso: o objeto de desejo (as crianças).
No fundo, o conto nos mostra que:
      A linguagem não cura, não explica, não protege.
      Há sempre um ponto onde a linguagem escapa ao controle — e é aí que ela toca o real do gozo.