Espaço escola Arapiraca – março 2025
Forum do campo lacaniano de Alagoas
Ética na formação do analista
Em seu Seminário 7 – A Ética da Psicanálise (1959-1960), Lacan discute a ética não como um conjunto de normas morais, mas como um compromisso com o desejo do analista.
O desejo do analista
Lacan afirma que a formação do analista exige que ele vivencie em sua própria análise para atravessar a fantasia no sentido de nunca intervir como sujeito para com o analisando, mas sim sustentar um lugar que permita ao sujeito confrontar seu próprio desejo.
O lugar do analista e a função do objeto a
O analista, segundo Lacan, ocupa o lugar do objeto a, ou seja, aquilo que causa o desejo no sujeito. Isso significa que ele deve evitar qualquer identificação pessoal ou poder sobre o analisando. Sua ética está em sustentar um vazio, permitindo que o sujeito projete seus significantes e elabore suas questões. Na verdade, há apenas um sujeito em jogo na experiência analítica, e esse sujeito é "subvertido". Seu parceiro não é sujeito, ele não intervém na experiência senão como objeto, um objeto "ativo". A subjetividade do analista está fora de jogo, ela não entra em consideração. Servindo-se da comparação da análise com uma partida de bridge, Lacan dizia que no bridge analítico o único lugar possível para os sentimentos do analista era o do morto, sem o qual "o jogo prossegue sem que se saiba quem o conduz". O analista tem a responsabilidade da direção da cura e, para isso, é preciso que ele tenha uma forma de abnegação. É o termo que Lacan emprega para qualificar a posição do analista: uma posição de abnegação é requerida da parte do analista pela e para a experiência.
Responsabilidade e a Lei do desejo
A formação do analista exige que ele esteja comprometido com a Lei do desejo, o que significa que ele não deve ceder à tentação de dar respostas fáceis ou encobrir a verdade do sujeito. Ele deve sustentar a falta, permitindo que o desejo se estruture sem a imposição de uma solução adaptativa.Em Televisão: "O discurso que digo analítico é justamente o laço social determinado pela prática de uma análise".
Desse ponto de vista, o que faz laço entre o analisante e o analista é esse discurso. É claro que a transferência está aí presente, ela sempre constitui o núcleo central da experiência, a prática de uma análise pressupõe isso. Mas considerando-se o laço de transferência tal como Lacan faz nos anos 1970, isto é, levando em conta o fato de que a experiência analítica tem uma estrutura de discurso, a transferência encontra-se em alguma medida reduzida, definida segundo as funções do discurso.
A escrita do sujeito suposto saber – "eixo a partir do qual se articula tudo o que acontece com a transferência” – com as três letras S.s.S., põe em relevo uma relação entre dois termos, o sujeito e o saber. Pode-se considerar que ela precede a escrita dos matemas dos discursos que escrevem relações entre quatro termos da álgebra lacaniana, cada um deles designando uma das quatro funções do discurso: o sujeito, o significante mestre, o saber e o objeto mais-de-gozar. A elaboração dos discursos como laços sociais fundamentais estende-se por diversos anos de seminário, desde 1969 até 1974. Lacan afirma, então, que entre os seres falantes não há "outro laço senão o laço de discurso". O laço analítico seria, assim, uma fraternidade de discurso. Como entender isso? Podemos, claro, dizer que o analista e o analisante são, cada um deles, sujeitos do discurso do Outro que é o inconsciente. Mas não é só isso: a análise vai operar para cada um aquilo que ela já realizou para o outro, o advento do sujeito dividido, a radicalidade da castração.Somos, enquanto tais, filhos do discurso analítico.
Na “Nota aos Italianos”, escrita por Jacques Lacan em 1973, é um texto breve, mas fundamental para entender sua posição sobre a psicanálise e sua transmissão. Ele foi redigido no contexto de um crescente interesse pela psicanálise lacaniana na Itália, especialmente por parte de um grupo de analistas que buscavam um contato mais direto com seu ensino.
Na década de 1970, a psicanálise lacaniana começou a se expandir internacionalmente, e Lacan foi convidado a dar conferências na Itália. No entanto, ele se mostrava cada vez mais crítico em relação às instituições psicanalíticas tradicionais, incluindo sua própria École Freudienne de Paris (EFP).
Nesse período, ele já estava elaborando a ideia do “nó borromeano”, um modelo que articulava os três registros fundamentais da psicanálise: o Real, o Simbólico e o Imaginário.
Na “Nota aos Italianos”, Lacan faz uma afirmação forte e provocadora: “Não há outra maneira de ser freudiano senão ser lacaniano.” Isso significa que, para ele, sua leitura de Freud era a única forma legítima de continuar o projeto freudiano. Ele via as instituições psicanalíticas da época como desviadas do verdadeiro ensino de Freud, tornando-se burocráticas e normativas.
Ele também reafirma que a psicanálise não pode ser reduzida a um método terapêutico ou a um saber acadêmico. Em vez disso, ela deve ser sustentada por um desejo de saber que vá além do domínio do eu.
Lacan já vinha criticando as instituições psicanalíticas há algum tempo, especialmente a IPA (Associação Psicanalítica Internacional), que ele via como um organismo burocrático preocupado mais com certificações do que com a transmissão autêntica da psicanálise.
Ele também começa a questionar a viabilidade da própria École Freudienne de Paris, que ele havia fundado em 1964. Essa dúvida culminaria, alguns anos depois, na sua decisão de dissolver a EFP em 1980.
A “Nota aos Italianos” da ênfase no não-saber como fundamental na posição do analista. Ele alerta que o verdadeiro psicanalista não pode se contentar com um saber formal ou acadêmico, pois a experiência da análise leva necessariamente ao encontro com um buraco no saber, ou seja, com algo que escapa à compreensão.
Freud escreveu "A Questão da Análise Leiga" para responder aos críticos da prática psicanalítica pelos não-médicos e orientou, nesse escrito teórico-clínico, como designaria o chamado “leigo” em sua condição de psicanalista: um não-médico que poderia ter a designação de analista.
O que Freud queria dizer com isso? Em primeiro lugar, que o conhecimento médico ou do psicólogo não seriam suficientes para a prática da psicanálise porque a qualificação do ofício de psicanalista não se coaduna nos moldes de certificados propostos pela Universidade; depois, porque os requisitos para a formação do analista vão além dos conhecimentos científicos e teóricos, incluindo não apenas esses conhecimentos essenciais, mas como ressalta:
“antes de tudo, somos levados à obrigação do analista tornar-se capaz, por uma profunda análise dele próprio, da recepção sem preconceitos do material analítico”.
Freud nesse texto também se refere à necessidade de trocas de ideias entre jovens e velhos nas sociedades de psicanálise com o intuito de conectar tratamento e pesquisa, assim como estabelece a grande responsabilidade da delicada arte da interpretação.
Lacan propôs o dispositivo do passe apostando nessa "prova" a que se referiu Freud onde o analista, além de fundamentado na análise, estudos e supervisões, ainda assim é livre em seu movimento e sua ação. Ou seja, ainda que provas, no sentido de títulos e trabalhos reconhecidos são exigidas para o Analista Membro da Escola; a prova do passe para o Analista da Escola seria numa acepção de testemunho, comprovante de como uma análise – sua singularidade de como percorreu seu trajeto analítico.
A “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola” é um texto fundamental de Jacques Lacan, onde ele apresenta sua concepção sobre a formação do analista e introduz o dispositivo do passe. Esse texto foi escrito no contexto da École Freudienne de Paris (EFP), fundada por Lacan, e buscava responder à questão: como se reconhece um psicanalista?
Lacan critica a ideia de que um analista se torna tal apenas por meio de cursos teóricos ou pela titulação institucional. Para ele, a única prova real de que alguém se tornou analista é a sua própria análise e a experiência subjetiva dessa travessia.
Ele introduz a ideia de que o psicanalista não é nomeado por outros, mas sim reconhecido pelo efeito de sua análise. O processo pelo qual um analisante se torna analista passa pelo que ele chama de passe: um momento em que ele testemunha a experiência de sua análise diante de outros analistas.
Lacan cria o dispositivo do passe como um método para verificar se um analisante atingiu o final de sua análise e se pode se tornar analista. O processo envolve:
• O analisante que sente ter concluído sua análise se apresenta voluntariamente.
• Ele relata sua experiência a passadores, que são encarregados de transmitir esse testemunho a um grupo de analistas mais experientes.
• Esse grupo, chamado de cartel do passe, decide se a pessoa demonstrou, em seu percurso, um verdadeiro encontro com a estrutura do inconsciente e se pode ser reconhecida como analista.
Uma das frases mais famosas desse texto é:
“O analista não se autoriza senão de si mesmo… e de alguns outros.”
Isso significa que o analista não recebe sua autoridade de um diploma ou de um título oficial, mas sim da experiência de sua análise e do reconhecimento de sua posição por outros analistas que compartilham da mesma ética. Ele não pode ocupar esse lugar por mero desejo de poder ou de saber, mas sim a partir da experiência radical de sua análise, que o coloca diante da castração e da falta.
A “Proposição de 9 de outubro” é um marco na psicanálise lacaniana porque reformula a questão da formação do analista. Ao invés de ser uma questão burocrática ou institucional, Lacan insiste que se trata de um processo subjetivo, no qual o analisante deve atravessar sua análise até um ponto onde ele possa sustentar a posição de analista.
A clínica dos testemunhos dos AEs nomeados revela que, após a modificação do gozo, uma autorização pela via do desejo de analista advém. Seria essa prova a que Freud pede uma “legalização" contra o charlatanismo da época atualizando-se agora nos cursos de graduação de psicanálise?
Na verdade, Lacan propõe em sua Escola, seguindo a direção freudiana da análise do “candidatoa analista”, que o mais importante seria levar esse sujeito a reconhecer o real da castração em sua própria análise: atravessar a experiência que o conduza ao ponto de apreender a lógica de sua fantasia fundamental e a ausência de garantia no Outro. Desse modo o analista poderá colocar de lado seu gozo, perpetuado pela fantasia, para revirar a relação com o objeto a=>$
Único modo possível para acolher e preservar o discurso analítico.
O passe é uma oferta da Escola e, ainda que esse fato não esteja ainda esclarecido para alguns colegas, não é uma obrigação dos membros de terem de se submeter à experiência, mas como ela é o âmago da Escola, todos podem partilhar do modo que quiserem: escrevendo artigos, votando nos membros dos cartéis do passe (CIG), indicando passadores, escutando os testemunhos dos colegas, enfim, sustentando a única prova de que fazemos psicanálise: articulação da clínica e Escola.
Nos últimos depoimentos do passe fica evidente como cada um dos passantes deduziu a lógica da falta em sua análise.
Escobar relata:
“Os termos desperdicio e dejeto são termos fortes que falam do verdadeiro lugar do analista no tratamento, ele sobra como o resto da operação analítica. Para alguns, pode ser esmagador e para os outros, entre os quais me incluo, o entusiasmo que produz a cura, a nova-idade, a segunda juventude que dá a análise e a paixão que resulta quando se consegue explicar a tirania do impossível são o melhor antídoto para neutralizar a frustração de seu destino, que é advertido pela própria experiência, mas esse destino, ainda que a humanidade não queira saber é o destino de todos os seres falantes”.
Pedro Pablo Arévalo:
“Uma análise levada até o fim reescreve a história pessoal, produz voltas no passado, presente e futuro, de tal maneira e medida que tudo muda, e não há como voltar atrás. Tampouco ficam a nostalgia, nem o temor do gozo mais pavoroso. Assim, se passa, mas não se esquece. Tudo se recorda, mas é uma recordação-outra. É uma via estreita a da Psicanálise, mas o que se extrai dela será sempre mais vital do que a errância neurótica”.
Nesse tempo atual de “todos consumidores”, nos acercam na instituição as novas formas do que Freud designou de charlatanismo, ou seja, os sujeitos que querem ser analistas a qualquer custo, sem perceber de que não se trata de um título acadêmico que se consegue com alguns anos de estudo, mas, além disso, implica sempre num ato que é sempre singular. Então a equação “todos analistas”, é inverso ao postulado da Escola de Lacan, que, insistindo na sua garantia pelo dispositivo do passe, abandona o barco do discurso capitalista onde se compram títulos e comendas, para aportar no impossível de mercantilizar: o real que não engana.
A psicanálise não é uma política, mas uma ética, uma ética do desejo que vai na contramão da política do desejo das políticas. no seminário A ética da psicanálise, propõe que o analista não é o garante do sonho burguês. O que é o sonho burguês? Permanecer no conforto. Ora, a tese de Lacan é que, para retornar à zona do desejo, é preciso renunciar aos bens, ao poder e ao conforto.
Ao mesmo tempo, pode-se deduzir daí que existe uma política da psicanálise que não pode ser baseada na ingenuidade. A ingenuidade está a serviço da ilusão de acreditar no otimismo. O entusiasmo como o afeto de fim de análise não é o mesmo que otimismo. Trata-se de um afeto que, ao contrário, supõe a queda dos falsos otimismos. Um afeto que não é a nostalgia das reivindicações de um passado melhor, nem a crença de um futuro marcado pela ideia de progresso. A política propõe a reunificação em torno de um ideal, ao passo que a psicanálise propõe a produção do um por um, o singular. Nesse sentido, é possível postular que a análise é subversiva sem ser revolucionária. A política visa ao arranjo, arranja as relações de modo a unificar as modalidades de gozo dos corpos e, para isso, fixa normas e exclui o fora da norma, ou seja, os sintomas. A ideia é que, quanto mais um sujeito se identifica com uma massa, mais ele perde sua identidade. A análise procede por um esquema oposto: para acessar o que cada um tem de mais singular, é preciso fazer um percurso que supõe a queda das identificações.
Ao extrair as identificações, o que se produz é uma queda das crenças e dos ideais. Essa é a condição de produção de um novo desejo. Percebe-se bem que a proposição ética da psicanálise vai na contramão da ética da felicidade promovida pela política. a política da psicanálise é a satisfação do desejo, mas, diferentemente da política, trata-se da satisfação de um desejo que não esteja alienado ao Outro, ou, antes, trata-se de um desejo efeito da desalienação. Resta dizer uma palavra sobre a ligação com o Outro em nossa época, marcada pelo narcisismo dos gozos sem a barreira dos ideais.
A resposta da psicanálise é que o desejo, ao final de uma análise, não é um desejo narcisista, mas um desejo advertido sobre o fato de que o gozo é do inconsciente, mas também de que não se goza do inconsciente sem o inconsciente do Outro. Por isso, a psicanálise não é uma prática que leva ao gozo autista, mas, sim, a um gozo que, embora seja de cada um, não pode ser obtido sem a implicação do inconsciente do Outro.
Portanto, a experiência do analista, experiência que é a da cura, à qual é necessário acrescentar a experiência que ele faz da doutrina, do saber analítico estabelecido e, em terceiro lugar, a experiência que ele tem do saber adquirido em sua própria cura e – isso é sobremaneira importante – as consequências que ele pode tirar desse acesso ao real que – é necessário lembrar – é na psicanálise real sexual: não há relação sexual. A arte de dizer do analista depende deste ternário do saber, do nó que se faz a partir:
- daquilo que ele escuta nas curas que ele dirige,
- de sua elaboração ( Durcharbeitung) a partir do saber obtido em sua cura,
- da sua relação à doutrina analítica.
Ideal do bem:
Lacan critica a ideia de que a psicanálise deva conduzir o sujeito a um estado de “bem-estar” ou adaptação social. Para ele, a ética do analista não está em direcionar o analisando para um ideal normativo, mas em permitir que ele encontre sua própria posição em relação ao desejo. Izcovich, em Identidade: escolha ou destino:
“A ideia é que, quanto mais um sujeito se identifica com uma massa, mais ele perde sua identidade. A análise procede por um esquema oposto: para acessar o que cada um tem de mais singular, é preciso fazer um percurso que supõe a queda das identificações. Ao extrair as identificações, o que se produz é uma queda das crenças e dos ideais. Essa é a condição de produção de um novo desejo. Percebe-se bem que a proposição ética da psicanálise vai na contramão da ética da felicidade promovida pela política (bem comum). A questão que vale a pena se colocar, pois é fundamental, é de saber se a psicanálise promove a emergência de um sujeito indiferente à política. É isso que, às vezes, algumas pessoas criticam na psicanálise. Na verdade, trata-se do oposto. A psicanálise muda o mundo. Ela o muda de uma forma diferente da política, e é possível se questionar se ela, no fundo, não o muda até mais.”