o psicanalista e a instituição
O
trabalho do psicanalista nas instituições, a partir do ensino de Jacques Lacan,
não pode ser pensado apenas como uma prática técnica aplicada em contextos
coletivos. Trata-se, antes, de uma posição ética sustentada por uma determinada
concepção da psicanálise, do desejo do analista e da transmissão.
Dois
textos fundamentais orientam essa discussão: o Ato de Fundação da
Escola Freudiana de Paris, de 1964, e a Proposição de 9 de outubro de
1967 sobre o psicanalista da Escola. Neles, Lacan formula a distinção entre
extensão e intensão da psicanálise, articulando a relação entre a experiência
singular da análise e sua inscrição institucional.
No Ato
de Fundação, Lacan propõe a criação de uma Escola que não seja apenas uma
associação de profissionais, mas um lugar de trabalho orientado pela causa
analítica. Lacan afirma que a psicanálise só pode ser transmitida a partir da
experiência do inconsciente e da elaboração produzida por aqueles que nela se
implicam.
É
nesse contexto que aparece a distinção entre psicanálise em extensão e
psicanálise em intensão. A extensão diz respeito à presença da
psicanálise no campo social: sua difusão, ensino, interlocução com outras
disciplinas, atuação institucional e incidência na cultura. Refere-se ao
movimento pelo qual a psicanálise ultrapassa o espaço estrito do consultório e passa
a operar em hospitais, escolas, universidades, serviços públicos e dispositivos
clínicos diversos.
Na
formulação de Jacques Lacan, a “psicanálise em extensão” diz respeito à
presença e incidência da psicanálise no laço social, na cultura, nas
instituições e nos modos de subjetivação de uma época — em contraste com a
“psicanálise em intensão”, que se refere à experiência analítica propriamente
dita, isto é, ao tratamento e à formação do analista.
Quando
Lacan afirma que “o analista deve estar à altura da subjetividade de sua
época”, ele introduz uma exigência ética e clínica: o analista não pode
operar apenas a partir de categorias cristalizadas ou de uma leitura histórica
fixa do sujeito. Ele precisa reconhecer como o inconsciente se manifesta nas
transformações contemporâneas do discurso, do desejo e do sofrimento psíquico.
Essa
correlação entre psicanálise em extensão e a subjetividade da época pode ser
pensada em dois eixos:
1) As
formas do mal-estar mudam historicamente.
O sintoma neurótico clássico descrito por Sigmund Freud coexistia com uma
cultura marcada pela repressão e pela autoridade. Hoje, aparecem frequentemente
formas ligadas ao excesso de gozo, à aceleração, à performance, ao consumo e
à fragilidade dos laços simbólicos.
2)
O discurso social modifica a constituição
subjetiva.
A ascensão da lógica capitalista, das redes digitais, da hiperexposição da
imagem e da exigência de satisfação imediata altera a relação do sujeito com o
desejo, o corpo e a falta. A função do analista exige leitura do
contemporâneo.
Estar “à altura” não significa adaptar a
psicanálise às modas culturais, mas conseguir escutar como o inconsciente fala
através dos significantes da época. Isso implica compreender os novos modos de
sofrimento: depressões, toxicomanias, compulsões, angústias difusas,
identidades frágeis, fenômenos de segregação etc. Os fenômenos de segregação
questionam o analista tanto por sua repetição, assim como pelas novas formas
que vêm se exibindo, como o ódio do outro, visto como estrangeiro, de raça
inferior, paraíba ou irracional.
Lacan conceitua o sujeito como representado pelo
significante e enquanto respondendo às significações advindas do campo do
Outro, constituindo-se como efeito da cadeia de significantes. O campo do Outro
indica o programa subjetivo dos significantes do sujeito. Esse programa contém
o conjunto de significantes que balizam o sujeito em sua história, seu desejo,
seus ideais, fantasias inconscientes e imaginárias.
A
decisão do sujeito, diante do que foi programado pelo Outro a partir de um
enigma que gira a chave de seu desejo, convoca sua singularidade e seu modo
particular de gozo. Desde essa perspectiva – a objeção estrutural ao Outro - a
psicanalise aposta que um sujeito é sempre singular e não faz conjunto, ao
menos é isso que ensina Lacan, que existe um dizer que é único. Nesse sentido somos
todos estrangeiros e quando tomamos o outro pela cor, sexo, diferenças e o
inscrevemos na lógica segregativa, estamos na verdade com dificuldades em
suportar a impotência da linguagem em inscrever a relação sexual. Ou seja,
queremos homogeneidade, impor nossa condição e apagar as diferenças. A homogeneização do mais de gozo
regulada pelas leis de mercado capitalista promove a ausência de diferenças e
exclui quem não se adequa. Foi de
certo modo a solidão vivida por Freud na contracorrente da maioria judaica que
lhe permitiu inaugurar esse lugar solitário que é o do psicanalista e dar
ouvidos à causa inconsciente do sofrimento humano.
A
psicanálise em extensão como intervenção.
Ela participa
do debate sobre educação, política, ciência, sexualidade, gênero, violência e
tecnologia, sustentando uma posição crítica diante dos discursos que reduzem o
sujeito a objeto de gestão, diagnóstico ou desempenho.
Nesse
sentido, a psicanálise em extensão é o campo onde se verifica se a psicanálise
continua viva para seu tempo. Se o analista não lê a subjetividade
contemporânea, sua prática tende a se tornar dogmática ou anacrônica. Mas, se
acompanha as mutações do laço social sem abandonar a ética do desejo e da
escuta do inconsciente, então ele pode sustentar uma clínica efetivamente
orientada pelo sujeito de sua época.
Já
a intensão concerne ao núcleo da experiência analítica propriamente dita: a
formação do analista, a análise pessoal, o manejo da transferência e a produção
do desejo do analista.
Essa
distinção é decisiva para pensar o trabalho do psicanalista nas instituições.
Se a extensão sem intensão corre o risco de reduzir a psicanálise a uma técnica
adaptativa ou a um discurso psicológico entre outros, a intensão sem extensão
pode enclausurar a experiência analítica em uma lógica elitista ou desligada do
laço social.
Para
Lacan, ambas são inseparáveis: a presença da psicanálise nas instituições só
se sustenta quando vinculada à ética própria da experiência analítica.
O
psicanalista, portanto, não ocupa na instituição o lugar de especialista que
oferece respostas normativas ou protocolos universais. Sua função é introduzir
uma escuta que considere a singularidade do sujeito diante dos modos de
funcionamento institucional, frequentemente organizados por ideais de
normalização, produtividade e avaliação.
Em hospitais, escolas, serviços de saúde
mental ou no jurídico por exemplo, o discurso institucional tende a operar pela
generalização dos casos e pela objetivação do sofrimento. O analista, ao
contrário, trabalha para fazer existir um lugar para a palavra singular e para
aquilo que escapa à lógica classificatória.
Essa
posição implica uma tensão constante. O analista participa da instituição, mas
não pode identificar-se completamente com seus ideais. Seu trabalho consiste
muitas vezes em sustentar um ponto de furo nos saberes
estabelecidos, recolocando em cena a dimensão do sujeito do inconsciente.
Assim,
a prática institucional da psicanálise intervém nas modalidades de circulação
da palavra, nas relações de equipe, na leitura dos impasses e na maneira como o
sofrimento é significado. Em outras palavras, o trabalho do psicanalista nas
instituições depende menos de um saber técnico acumulado do que da posição
subjetiva produzida em sua própria análise.
A
partir disso, pode-se afirmar que o analista nas instituições ocupa uma função
paradoxal. Ele está inserido em equipes, normas e políticas públicas,
mas sua prática visa preservar algo da ordem do não-todo, da singularidade e do
impossível de normatizar. Sua intervenção não busca completar a instituição nem
torná-la plenamente eficiente; ao contrário, introduz uma dimensão crítica
diante dos ideais totalizantes que frequentemente organizam os discursos
institucionais.
A
contribuição lacaniana permite, assim, pensar as instituições não apenas como
locais de aplicação da psicanálise, mas como espaços onde se coloca
continuamente a questão da transmissão, da ética e do desejo do analista.
A
diferença entre extensão e intensão mostra que a presença da psicanálise no
social só mantém sua especificidade quando permanece articulada à experiência
singular do inconsciente. O desafio do psicanalista institucional consiste
precisamente em sustentar essa articulação sem ceder nem à adaptação
burocrática nem ao isolamento da prática analítica em relação ao mundo social.
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