segunda-feira, 27 de abril de 2026

O saber e a verdade

 


O saber na psicanálise: escrita e formalização do caso clínico”

 o saber e a verdade

Qual saber a psicanálise oferece ao sujeito para que possa desvendar o sofrimento do sintoma e aceder a um novo modo de suportar a existênciadiversamente daneuroseFreud se dedicou a elaborar os princípios e aelucidação, através da palavrana associação livreda experimentação desse saber. Um saber que deve ser degustado, pois não se refere a uma abstração, uma vez que o analisante no começo da análise não sabe o que diz e se surpreende ao se escutar no divã.

Freud nos apresentou um novo sujeito – o sujeito do inconsciente - a subjetividade que desbancou o eu de sua supremacia. Ele respeitou a fala de seus pacientes ao escutar a verdade desconhecida do eu, mas própria do sujeito do inconsciente. Ele foi aquele que deixou, sob o nome de inconsciente, que a verdade falasse. Em “Análise terminável e interminável” (1937/2011) ele recomenda, inclusive, que a relação analítica fosse fundada no amor à verdade.

A verdade que interessa a Freud é a verdade sobre a posição do sujeito em relação ao gozo, porque quando a psicanálise convoca alguém para falar “toda a verdade” de seus sintomas, segredos, sonhos e fantasias, é como dirigir-se ao desconhecido e com a emergência da angústia. O dispositivo freudiano coloca o sujeito diante dessa prova da angústia, sob transferência, para que tenha acesso ao desejo. A operação transferencial, colocação em ato da realidade do inconsciente e mola mestra do processo, orienta o caminho até a verdade, o acesso ao saber inconsciente e a regulação da relação do sujeito com a falta, sem tentar encobri-la, mas para que a experiência possa transformá-la.

Lacan ( 1972-1973/1985, p. 123) problematiza ocaminho da decifração freudiana a leitura do saberinconsciente: “Quanto à análise, se ela se coloca por uma presunção, é mesmo por esta, que se possa constituir, por sua experiência, um saber sobre a verdade.” Ainda que seja pouca a verdade a ser alcançada e por vias torcidas, ela é indispensável, diz ele

No entanto, a estrutura da verdade indica que o gozo do ser falante se revela como uma objeção, uma falha no programa do princípio do prazer. Contar sua história,localizando as conjecturas sobre o passado e atribuindo a elas sentido, por si só, não se mostrou suficiente para que a verdade inconsciente se revelasse ao sujeito. Oesquecido que é veiculado nos sintomas, chistes, atos falhos e sonhos, mesmo traduzindo a verdade do mais-de-gozar, não pode ser totalmente apreendido, pois a rememoração simbólica não toca o real pulsional. Freud tropeça nessas manifestações residuais, resto de libido em meio ao conjunto de significantes. O que quer dizer que a libido não se deixa decifrar inteiramente, pois há fixação e a dificuldade em dizer tudo da regra da associação livre esbarra na permanência do sintoma, que mesmo depois de ser interpretado, permanece. Daí o pessimismo de Freud quanto à elucidação simbólica dos nós significantes que liberariam o sujeito do sintoma. Se a rememoração simbólica lida com metáfora e metonímia, portando movimento e fluidez, a manifestação residual é fixação, inamovível.

Se o programa edípico que foi oferecido como solução do enigma fracassa, Lacan propõe ir além do sentido, naquilo que escapa e ultrapassa tudo que é da ordem do significante, operando nas vias de acesso da verdade e os efeitos enigmáticos do gozo. A análise, portanto, deve apreender as razões desse fracasso, verificação dessa impossibilidade num trajeto lógico para alcançar algo do real. E não existe outra via, senão da própria análise para elaborar a relação como os elementos rastreáveis do infantil que retornam. 

No Avesso da psicanálise, Lacan (1969-70/1992)articula sua teoria dos discursos – uma máquina de transformação do gozoTomar a psicanálise pelo avesso implicaria, então, ultrapassar a prática freudiana ancorada no campo da significação fálica estabelecido pela castração e o Édipo para constituir os discursos como escrituras, transformando esses operadores em discursos, suplantando assim a centralidade topológica do pai. 

Descolonizar o Real habitado pelo pai simbólico exige a formalização de outro tratamento a ser dado ao Real, mas desta feita considerando a impossibilidade da significação e do sentido, revelado no dizer "não há relação sexual". Dito de outro modo, Lacan vai situar o discurso como uma estrutura que ultrapassa a palavra e as relações de significação, porque estas estão diretamente atreladas à falta de significante no Outro S(A/) e coloca os discursos como girando em torno da impossibilidade de tudo saber, de tudo gozar.

O sujeito se inscreve no Outro pela perda e, desse modo, submete-se à entrada na cadeia significante. No entanto, o significante que decidiria sua relação com a verdade está perdido e ele não consegue apreender o que é no desejo do Outro, pois é da ordem de uma incógnita, um enigma. Por conta disso, uma análise visa a produção de um desejo próprio do sujeito, para que ele não seja capturado na posição de objeto do Outro, dito de outra maneira: um desejo que não se sustente mais na fantasia, que lhe fornecia o enquadre da realidade. 

Desse modo, a invenção da psicanálise realoca a questão do saber, pois diferentemente da religião ou da ciência, afiança que há saber que não se sabe (unbewusste). O saber articulado, que vai de um significante a outro, engendra necessariamente uma falta-a-saber, mantendo o sujeito em uma busca constante de complemento de saber. Trata-se de um saber que foi arquitetado pelo sujeito na fantasia em uma configuração de como interpretou o encontro com o gozo do Outro, dando consistência a essa dimensão do Outro em sua vida. 

A análise lacaniana implica em pressionar os significantes para extrair um saber do que foi cifrado pelo gozo em memórias de infância, contingências do encontro com a falta do Outro e nos mitos e lendas inventados na história de um sujeito. O analista deve corrigir essa operação neurótica – onde a fantasia fixa um sentido - para acercar-se do saber não sabido. E Lacan sugere, além da escuta, que o analista deveria ensinar o sujeito a ler o inconsciente (LACAN, 1971/2009).

O analista está assentado para fazer supor um saber enquanto verdade na fala de seu paciente. Mas, se Lacan pôde ir além do amor à verdade, é que propôs ainterpretação, como um saber no lugar da verdade, sabendo que esta tem uma estrutura de ficção, já que se faz a partir da estrutura da linguagem. A ética da psicanálise se funda numa relação que não é do conhecimento, mas do que ressoa nas palavras do real para separar o sujeito do Outro. A consequência lógica dessa ética é a invenção de um novo saber, não mais aquele disposto pelo Outro, mas um novo desfecho ao que lhe foi apreendido como destino.

Diríamos que um dos principais efeitos do deslocamento do campo da significação ao campo do não-sentido foi uma nova concepção lacaniana do saber, não mais entendido como uma articulação significante, mas como um modo de encaminhamento da satisfação pulsional, portanto diretamente atrelado à repetição e assimilado como um aparelho de grafia do gozo. 

O sujeito que padecia dos efeitos do saber inconsciente sem sabê-lo, e que esperava reduzi-los, sabe agora do irredutível do saber no real, pelo que se vê afetado, e percebe o que isso implica de incurável. Com essa posição ética em relação à verdade, é possível no percurso analíticoobter um tanto de saber que pode ter um impacto sobre o real do sintoma. 

Lacan (1972-1973/1985) compara o trabalho da análise ao trabalho da aranha, pois tal como ela, que faz brotar a teia de um ponto opaco desse ser – que mostra o real acedendo ao simbólico - o sujeito segue em uma análise tecendo suas redes significantes, mas conservando as pegadas do ponto obscuro que é a relação com o gozo, marca da singularidade que indica como cada um se desenrola com a impossibilidade estrutural. Essa arquitetura enuncia o que Lacan indica como leitura do inconsciente: as infinitas voltas na teia para extrair os elementos reduzidos ao mínimo. Destituição dos significantes mestres a partir da posição que o analista ocupa na operação analítica como objeto a causa de desejodo sujeito, permitindo construir um saber no lugar da verdade, emancipando-se do efeito alienante dos S1s.Cada analisante diz das condições fantasmáticas que o conduziram até então, para recolher, no marco analítico um saber com o qual orientar-se e viver melhor. 

Essa é a distinção da análise e das psicoterapias, porque uma psicanálise aposta na redução do sentido, através do guia estrutural da falha no saber, levando o sujeito a uma nova posição frente ao saber. Nos testemunhos de passe podemos encontrar e nomear o ponto obscuro de onde o sujeito tece sua teia, a relação com o gozo. As palavras são capazes de dar borda ao impossível estrutural do S(A/) mesmo trabalhando com a verdade semi-dita e o saber que resta da articulação significante.

O saber adquirido numa análise, se estamos na clínica do real, fornece ao sujeito um modo de lidar com a amarração da triplicidade lacaniana – real, simbólico e imaginário – deslocando-o do seu gozo e franqueando a castração, numa maneira inédita de estar no laço social sem aderir ao discurso do Outro.

Bibliografia

FREUD. Análise terminável e interminável. In: FREUD, S. Freud (1937-1939) - Obras completas volume 19:Moisés e o monoteísmo, Compêndio de psicanálise e outros textos. São Paulo: Cia das Letras, 1937/2011., p. 13-113.

LACAN, J. O Seminário, Livro 17, O avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, (1969-70/1992.

LACAN, J. O seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semelhante. Rio de Janeiro: Zahar, 1971/2009.

LACAN, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1972-1973/1985.

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