O cartel, uma estrutura borromeana com um saber a bordar
Alba Abreu
A invenção
Em 1964, no Ato de Fundação que cria a Escola Freudiana de Paris, Lacan estabelece suas coordenadas e coloca a estrutura do cartel, órgão de base de uma Escola, como o artifício para um trabalho que intersecciona intensão e extensão:
A transferência de trabalho no Cartel busca a inclusão do particular – um produto de cada um - como atributo responsável pelo desejo de saber, ou seja, cada cartelizante participa por sua condição desejante. Em 1980, no texto D´Écolage, encontra-se explícita a questão do produto, que não se confunde com a produção nem mesmo com o trabalho. Ele diz: “Quatro se escolhem para prosseguirem um trabalho que deve ter um produto. Dou a precisão: produto próprio de cada um, e não coletivo”. Produção, no coletivo e produto, saber de cada um. Se por vezes consideramos que produto e produção são muitas vezes usados como sinônimos, parece-me que neste contexto é importante diferenciá-los, lembrando que o produto é o resultado de um tempo de trabalho no cartel. (Sandra Berta, o produto do cartel)
Um grupo de estudos é confortável, mas esta suscetível ao mal-estar por conta do imaginário do grupo e sua dimensão do gozo, de cola e dificuldade de dissolução. Como tal, inibe a produção do saber de cada um por se estruturar na maioria das vezes em torno de um líder, de suas referências e busca de uma verdade.
A lógica que rege o cartel é a falta de um saber acabado, concluído e totalizador, que vai permitir a elaboração pessoal e o vínculo particular de cada membro do cartel com a Escola, sustentado no desejo de saber e na relação com a causa analítica. Porém há sempre umaprecariedade no cartel:
O cartel como dispositivo de transmissão é proposto por Lacan como "órgão de base" do funcionamento de sua Escola. Trata-se de uma estruturação coletiva que se organiza para além dos efeitos de 'grupo' descritos por Freud em Psicologia de grupo e análise do eu: para que um número x de indivíduos se reúna faz-se necessário um elo comum, o líder, e o reconhecimento que destina aos outros, o que conecta os membros entre si.
A identificação com o líder é o que move o mecanismo de toda e qualquer formação grupal. Freud advertia que os laços que se estabelecem em grupos como exército, igreja, instituições e movimentos de massa possuem um tipo de identificação com o líder que se caracteriza por situar o objeto no lugar do ideal do eu, causando assim um traço permeável a cada um dos membros. Nesse tipo de identificação simbólica, estariam também o amor, a paixão e a hipnose, onde impera a supervalorização do objeto amado.
O cartel, tal como Lacan inventou, se tornou a principal ferramenta da apreensão da psicanálise e sua transmissão. A multiplicação dos carteis articula a “psicanálise em intensão” com a “psicanálise em extensão”. A primeira refere-se à própria experiência entre o analista e o analisando, artifício primordial na formação de um analista. A psicanálise em extensão trata da articulação entre a lida cotidiana com a psicanálise e o saber que esta dispõe; um exercício de transmissão e revisão da herança freudiana a partir de Jacques Lacan ( Jimenez, 1994, p. 12).
HISTÓRICO
Em “A psiquiatria inglesa e a guerra” (Outros escritos, 1947). Lacan conta a sua simpatia pelo trabalho de grupo executado na Inglaterra durante a segunda guerra mundial por dois psiquiatras ingleses: Bion e Rickman. Os grupos terapêuticos se formaram a partir do impasse que a guerra impunha:
Pela ordem das circunstâncias e a dificuldade de tratar de 400 soldados individualmente, Bion e Rickman lançaram mão do artifício do grupo. O que a diferenciava da massa freudiana era a extinção da identificação verticalizada imposta pela figura do líder. Ao invés de se respaldar na figura de um ideal como agente aglutinador, Bion apostou na identificação horizontal. Na tarefa a ser realizada pelo grupo admitiam-se as especificidades de cada um, seu próprio modo de lidar com a realização do trabalho e com os outros; e ainda assim, cabia o não-querer-fazer. As regras que regiam os conjuntos de soldados eram permeadas pela descompletude, atribuição em princípio, contrária ao grupo que se pretende universal.
Regras:
1)Todos os homens devem fazer uma hora de exercício físico por dia, salvo se apresentarem um certificado médico;
2) Todos os homens a uma ou a várias das seguintes atividades: trabalhos manuais, cursos de correspondência organizados pelo exército; marcenaria; cartografia; construção de maquetes etc.;
3) É permitido a cada homem formar um novo grupo, seja porque não existe ainda o tipo de atividade que ele deseja, seja porque, por uma razão qualquer, é impossível para ele aderir a um dos grupos já existentes;
4) Todo homem que não se sinta em condições de assistir as reuniões de seu grupo deve se dirigir a sala de repouso.
A regra que se encontra subtendida a todas as demais é a negociação: acordo que se estabelece entre aquilo que está instituído e aqueles que estão institucionalizados. Enquanto as normas elaboradas por Bion, previram a condição do Outro barrado, na massa freudiana há o comando do Outro, seu imperativo e sua presença abrange o lugar de todos, e a relação entre os membros do grupo só acontece via líder; se este é destituído o grupo se desfaz.
Laurent: Um grupo que por essas razões, se opõe por princípio à homogeneidade da massa porque não se sustenta no olhar absoluto do Ideal, nem da igualdade imaginária que deriva da identificação àquele Ideal, mas em um laço social reduzido ao trabalho, à realização do objetivo comum.
Essas premissas do grupo de Bion é a lógica do dispositivo do Cartel em que a tarefa induz cada sujeito a obter um produto singular. Essa logica é trazida por Lacan para o cartel.
MAIS UM
Se no grupo freudiano há um líder que enlaça o coletivo, no cartel lacaniano, o Mais-Um é um líder enfraquecido. Sua base é a inexistência da relação, um furo que provoca a enunciação e que a força a partir desse furo, conduz a uma relação, às vezes, inédita com um saber. O lugar do Mais-Um é um lugar fundamental para fazer um laço que dê como resultado o trabalho no cartel e do qual possa se obter um produto, de preferência escrito, mas não só. O laço faz referência a um lugar, que possibilite o enlaçamento entre os elementos.
Ainda no seminário RSI Lacan introduz o nó borromeano de quatro elementos. Nesta figura o quarto aro é fundamental para o enodamento, sendo suplementar à trilogia. Lacan lança aí uma ideia de disjunção fundamental dos três registros. Será esse último aro responsável por manter a cadeia unida. Uma vez solto todos os outros se desacorrentaram, um de cada vez, até o primeiro. O último aro acrescentado é responsável por manter os outros unidos. Inicialmente Lacan define o quarto aro como Nome-do-Pai no que este possui a função de nomear as coisas amarrando e dando consistência aos registros. O (+1) no nó borromeano garante que RSI estejam unidos num arranjo em que nenhum deles se encontre numa amarração privilegiada. Tal como a figura ilustra o mais-um seria este quarto aro responsável pela amarração dos registros, porém imprescindível como qualquer um dos outros para a configuração do nó.
A LÓGICA DO CARTEL
Como falar da garantia se são elos soltos, cada um com seu trabalho; aceita o fracasso e a dissolução como maneira de fazer? Um dispositivo-resistencia à burocratização das sociedades psicanalíticas
Efeitos de transmissão: produção e nova posição frente à Escola:
“O cartel cria um espaço de intimidade necessário ao desdobramento das questões da pesquisa própria; mas para que isso seja possível, precisa-se da confiança: a confiança mútua de que aquilo que se disser ali será escutado com respeito por mais insipiente e pouco articulado que possa parecer; a confiança de que a resposta do outro não se baseia em má fé, mas no desígnio de fazer avançar; a confiança para tratar das possíveis crises ou destemperos que em um dado momento algum dos componentes possa manifestar; a confiança de que esse real que dá a cada um sua forma, seu estilo e seu selo peculiares, com suas virtudes e defeitos, vai poder ser suportado pela estrutura desse pequeno grupo; a confiança de que aquilo que se capta da cada integrante, para lá de seus ditos, em sua vertente mais pulsional e desencarnada, não será utilizado para minar o ser de alguém na comunidade local nem fora dela. Um cartel não pode sustentar-se sem que a tão invocada ética da psicanálise se encarne em seus componentes. O cartel, quando funciona, tece entre seus membros laços de trabalho e de saber subversivos que nada têm a ver com o discurso do senhor ou universitário; quando funciona, um cartel sustenta o que cada integrante tem para dizer..., que ainda não foi dito; no cartel, às vezes, se escuta o dizer de cada um, o que constitui uma experiência francamente incomum. O cartel atualiza o desejo de manter viva a psicanálise, único motivo pelo qual uma Escola é necessária. Se a Escola dos Fóruns quiser que o Passe tenha alguma chance, então seus membros precisarão tecer a estrutura que o sustente, que outra não é senão os cartéis. Blanca Sánchez Gimeno ( wunsch 6)
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