quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

Conversa no FCL Salvador 7/8/2019

     O mal estar da civilização: racismo, segregação

e silenciamento.

Freud, em O mal estar na cultura aponta que “O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens.

E quando nosso corpo é destinado à destruição no relacionamento com os outros homens, como é o caso do racismo? Persistindo no mundo atual, se não subjugado e desapropriado, sob um manto de invisibilidade e silenciamento. Mbembe, em Crítica da razão negra descreve como, desde a plantação à colônia, o conceito de escravo se acaba por fundir com o de negro até se tornarem sobreponíveis. O racismo é o modelo legitimador da opressão e da exploração, ao serviço do capitalismo, o qual necessitava de pressupostos raciais para subsistir: “negro seria, portanto o codinome, a túnica com a qual os outros me disfarçaram e na qual me tentam encerrar”.

O significante negro, inventado pelos europeus para desumanizar o homem de África e torná-lo moeda/coisa para produzir além Atlântico, legou ao negro a falta de um nome próprio, desabonou-o de seu romance familiar e sua história. Excluído do campo das representações, encarna a lógica capitalista do corpo como puro objeto de gozo.  O conceito de “Negro”, idealizado pelo Ocidente como uma fábula plena de exotismo, refinada com elementos carnais de pulsão sexual e sensualidade, conduziu a um imaginário que tanto fascinava como originava repúdio e repulsa. O liberalismo econômico teve por base o comércio de escravos, responsável pelo desenvolvimento do capitalismo e pelo que hoje chamamos globalização. Neste contexto, o negro ocupou o papel de pura mercadoria. Por sua vez, infelizmente, o liberalismo político e o discurso sobre os direitos humanos, herdeiro do iluminismo, utilizam a escravidão como metáfora da condição humana em seu conjunto, assim apagando a existência do racismo sob a bandeira da igualdade e da fraternidade: trata-se de um discurso universalizante que, por isso mesmo, é incapaz de dar conta da diferença histórica sobre a qual se fundam as categorias “negro” e “raça”. Não se pode mais negar que é o olhar do colonizador que cria o negro, um olhar que não vê nada além de um corpo sobre o qual projeta todo tipo de ansiedade, e que se alimenta da sua própria ignorância.

Os fenômenos de segregação questionam o analista tanto por sua repetição, assim como pelas novas formas que vêm se exibindo, como o ódio do outro, visto como estrangeiro, de raça inferior, paraíba ou irracional.

Lacan conceitua o sujeito como representado pelo significante e enquanto respondendo às significações advindas do campo do Outro, constituindo-se como efeito da cadeia de significantes. O campo do Outro indica o programa subjetivo dos significantes do sujeito. Esse programa contém o conjunto de significantes que balizam o sujeito em sua história, seu desejo, seus ideais, fantasias inconscientes e imaginárias. A decisão do sujeito, diante do que foi programado pelo Outro a partir de um enigma que gira a chave de seu desejo, convoca sua singularidade e seu modo particular de gozo. Desde essa perspectiva – a objeção estrutural ao Outro - a psicanalise aposta que um sujeito é sempre singular e não faz conjunto, ao menos é isso que ensina Lacan, que existe um dizer que é único. Nesse sentido somos todos estrangeiros e quando tomamos o outro pela cor, sexo, diferenças e o inscrevemos na lógica segregativa, estamos na verdade com dificuldades em suportar a impotência da linguagem em inscrever a relação sexual.

Freud dizia que a segregação é anterior à fraternidade, ou seja, como manifestação do mal-estar na cultura, o racismo tem a ver com estrutura mesma do sujeito. A relação entre os semelhantes alude uma dicotomia, pois o fundamento de todo amor é narcísico e não existe amor entre irmãos sem a rejeição dos estrangeiros. Por conta desse fato que é sempre imaginável a união de alguns homens, sob a condição de deixar alguns outros de fora, para poder dirigir o ódio e a agressividade contra estes. Como diz Mbembe «ao reduzir o ser vivo a uma questão de aparência, de pele ou de cor, outorgando à pele e à cor o estatuto de uma ficção de cariz biológico, os mundos euro-americanos em particular fizeram do Negro e da raça duas versões de uma única e mesma figura, a da loucura codificada.» A homogeneização do mais de gozo regulada pelas leis de mercado capitalista promove a ausência de diferenças e exclui quem não se adequa.

Os ancestrais africanos não fazem uma oposição entre alma e corpo, entre vida e morte o que torna a necropolítica uma lógica ainda mais perversa, pois retira os modos honrados de morrer das pessoas negras herdeiras das percepções africanas da realidade. Não é aquela morte que permite seguir vivendo de outros modos, mas uma morte que aniquila, que extermina, que fere um povo inteiro.

Através da justiça, restituição e reparação, Mbembe propõe a descolonização mental da Europa. Um projeto comum e universal, de «reinvenção da comunidade.».

Para Mbembe, o atual mundo globalizado requereria uma crítica radical da raça, tanto política como ética, a partir da qual seria possível passar de uma afirmação da diferença para uma afirmação da comunidade humana. Valendo-se, sobretudo, de Fanon, e estendendo a questão do negro ao que o autor chama “novos condenados da terra”, Mbembe afirma que qualquer projeto efetivamente emancipador, nos dias de hoje, requer que o negro abandone o papel de vítima, por um lado, e que os colonizadores assumam a sua responsabilidade, de outro. Trata-se, segundo ele, de insistir na lógica da justiça: Enquanto persistir a ideia segundo a qual só se deve justiça aos seus e que existem raças e povos desiguais, e enquanto se continuar a fazer crer que a escravatura e o colonialismo foram grandes feitos da “civilização”, a temática da reparação continuará a ser mobilizada pelas vítimas históricas da expansão e brutalidade europeia no mundo.

O devir-negro do mundo: expressão que introduz a possibilidade de pensar outros sujeitos racializados - muçulmanos, por exemplo - como os “novos negros” do mundo contemporâneo, e que reforça a ideia de que a categoria negro não passa de uma ficção útil. Não humano ou sub-humano, e ainda, ameaça ao mundo dos “brancos” .

São diversas as formas de rejeitar a existência do gozo Outro, como segregar, calar, excluir e, inclusive, tentar torná-lo igual, o, através do mecanismo da assimilação – são todas práticas de racismo.

Lacan nos propõe, em Televisão, “deixar a esse Outro seu modo de gozo, eis o que só se poderia fazer não impondo o nosso, não o considerando um subdesenvolvido”.

Foi de certo modo a solidão vivida por Freud na contracorrente da maioria judaica que lhe permitiu inaugurar esse lugar solitário que é o do psicanalista e dar ouvidos à causa inconsciente do sofrimento humano. O destino da humanidade, para ele, depende do equilíbrio entre as reinvindicações do individuo e as exigências culturais. A proteção da comunidade dependeria da justiça e da regulação entre as relações humanas.

A proposta de uma análise é sair da uniformidade, do silenciamento, do mesmo gozo para todos. O discurso analítico propõe uma dimensão ética que é a dignidade e o respeito de um gozo diferente a cada um, levando ate o final de uma análise onde se possam destituir as identificações.

A psicanalise deve tratar a relação do sujeito com o mundo de modo a incluir a historia, encarar o corpo negro tombado pelas marcas da escravidão e da destruição, como fazendo-se responsável por esses antepassados que são os nossos.