Conversa
no FCL Salvador 7/8/2019
O mal estar da civilização: racismo, segregação
e
silenciamento.
Freud,
em O mal estar na cultura aponta que
“O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de
nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que
nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do
mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição
esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os
outros homens.”
E quando nosso corpo é destinado à
destruição no relacionamento com os outros homens, como é o caso do racismo? Persistindo
no mundo atual, se não subjugado e desapropriado, sob um manto de
invisibilidade e silenciamento. Mbembe,
em Crítica da razão negra descreve
como, desde a plantação à colônia, o conceito de escravo se acaba por fundir
com o de negro até se tornarem
sobreponíveis. O racismo é o modelo legitimador da opressão e da exploração, ao
serviço do capitalismo, o qual necessitava de pressupostos raciais para
subsistir: “negro seria, portanto o codinome,
a túnica com a qual os outros me disfarçaram e na qual me tentam encerrar”.
O
significante negro, inventado pelos europeus para desumanizar o homem de
África e torná-lo moeda/coisa para produzir além Atlântico, legou ao negro a
falta de um nome próprio, desabonou-o de seu romance familiar e sua história. Excluído
do campo das representações, encarna a lógica capitalista do corpo como puro objeto
de gozo. O conceito de “Negro”, idealizado pelo
Ocidente como uma fábula plena de exotismo, refinada com elementos carnais de
pulsão sexual e sensualidade, conduziu a um imaginário que tanto fascinava como
originava repúdio e repulsa. O
liberalismo econômico teve por base o comércio de escravos, responsável pelo
desenvolvimento do capitalismo e pelo que hoje chamamos globalização. Neste
contexto, o negro ocupou o papel de pura mercadoria. Por sua vez, infelizmente,
o liberalismo político e o discurso sobre os direitos humanos, herdeiro do
iluminismo, utilizam a escravidão como metáfora da condição humana em seu
conjunto, assim apagando a existência do racismo sob a bandeira da igualdade e
da fraternidade: trata-se de um discurso universalizante que, por isso mesmo, é
incapaz de dar conta da diferença histórica sobre a qual se fundam as
categorias “negro” e “raça”. Não
se pode mais negar que é o olhar do colonizador que cria o negro, um olhar que
não vê nada além de um corpo sobre o qual projeta todo tipo de ansiedade, e que
se alimenta da sua própria ignorância.
Os
fenômenos de segregação questionam o analista tanto por sua repetição, assim
como pelas novas formas que vêm se exibindo, como o ódio do outro, visto como estrangeiro,
de raça inferior, paraíba ou irracional.
Lacan
conceitua o sujeito como representado pelo significante e enquanto respondendo
às significações advindas do campo do Outro, constituindo-se como efeito da
cadeia de significantes. O campo do Outro indica o programa subjetivo dos
significantes do sujeito. Esse programa contém o conjunto de significantes que
balizam o sujeito em sua história, seu desejo, seus ideais, fantasias
inconscientes e imaginárias. A decisão do sujeito, diante do que foi programado
pelo Outro a partir de um enigma que gira a chave de seu desejo, convoca sua
singularidade e seu modo particular de gozo. Desde essa perspectiva – a objeção
estrutural ao Outro - a psicanalise aposta que um sujeito é sempre singular e
não faz conjunto, ao menos é isso que ensina Lacan, que existe um dizer que é
único. Nesse sentido somos todos estrangeiros e quando tomamos o outro pela
cor, sexo, diferenças e o inscrevemos na lógica segregativa, estamos na verdade
com dificuldades em suportar a impotência da linguagem em inscrever a relação
sexual.
Freud
dizia que a segregação é anterior à fraternidade, ou seja, como manifestação do
mal-estar na cultura, o racismo tem a ver com estrutura mesma do sujeito. A
relação entre os semelhantes alude uma dicotomia, pois o fundamento de todo
amor é narcísico e não existe amor entre irmãos sem a rejeição dos
estrangeiros. Por conta desse fato que é sempre imaginável a união de alguns
homens, sob a condição de deixar alguns outros de fora, para poder dirigir o
ódio e a agressividade contra estes. Como diz Mbembe «ao reduzir o ser vivo a
uma questão de aparência, de pele ou de cor, outorgando à pele e à cor o
estatuto de uma ficção de cariz biológico, os mundos euro-americanos em
particular fizeram do Negro e da raça duas versões de uma única e mesma figura,
a da loucura codificada.» A homogeneização do mais de gozo regulada pelas leis
de mercado capitalista promove a ausência de diferenças e exclui quem não se
adequa.
Os
ancestrais africanos não fazem uma oposição entre alma e corpo, entre vida e
morte o que torna a necropolítica uma lógica ainda mais perversa, pois retira
os modos honrados de morrer das pessoas negras herdeiras das percepções
africanas da realidade. Não é aquela morte que permite seguir vivendo de outros
modos, mas uma morte que aniquila, que extermina, que fere um povo inteiro.
Através
da justiça, restituição e reparação, Mbembe propõe a descolonização mental da
Europa. Um projeto comum e universal, de «reinvenção da comunidade.».
Para
Mbembe, o atual mundo globalizado requereria uma crítica radical da raça, tanto
política como ética, a partir da qual seria possível passar de uma afirmação da
diferença para uma afirmação da comunidade humana. Valendo-se, sobretudo, de
Fanon, e estendendo a questão do negro ao que o autor chama “novos condenados
da terra”, Mbembe afirma que qualquer projeto efetivamente emancipador, nos
dias de hoje, requer que o negro abandone o papel de vítima, por um lado, e que
os colonizadores assumam a sua responsabilidade, de outro. Trata-se, segundo
ele, de insistir na lógica da justiça: Enquanto persistir a ideia segundo a
qual só se deve justiça aos seus e que existem raças e povos desiguais, e
enquanto se continuar a fazer crer que a escravatura e o colonialismo foram
grandes feitos da “civilização”, a temática da reparação continuará a ser
mobilizada pelas vítimas históricas da expansão e brutalidade europeia no
mundo.
O devir-negro do mundo:
expressão que introduz a possibilidade de pensar outros sujeitos racializados -
muçulmanos, por exemplo - como os “novos negros” do mundo contemporâneo, e que
reforça a ideia de que a categoria negro não passa de uma ficção útil. Não
humano ou sub-humano, e ainda, ameaça ao mundo dos “brancos” .
São
diversas as formas de rejeitar a existência do gozo Outro, como segregar,
calar, excluir e, inclusive, tentar torná-lo igual, o, através do mecanismo da
assimilação – são todas práticas de racismo.
Lacan
nos propõe, em Televisão, “deixar a esse Outro seu modo de gozo, eis o que só
se poderia fazer não impondo o nosso, não o considerando um subdesenvolvido”.
Foi
de certo modo a solidão vivida por Freud na contracorrente da maioria judaica
que lhe permitiu inaugurar esse lugar solitário que é o do psicanalista e dar
ouvidos à causa inconsciente do sofrimento humano. O destino da humanidade,
para ele, depende do equilíbrio entre as reinvindicações do individuo e as
exigências culturais. A proteção da comunidade dependeria da justiça e da
regulação entre as relações humanas.
A
proposta de uma análise é sair da uniformidade, do silenciamento, do mesmo gozo
para todos. O discurso analítico propõe uma dimensão ética que é a dignidade e
o respeito de um gozo diferente a cada um, levando ate o final de uma análise
onde se possam destituir as identificações.
A
psicanalise deve tratar a relação do sujeito com o mundo de modo a incluir a
historia, encarar o corpo negro tombado pelas marcas da escravidão e da
destruição, como fazendo-se responsável por esses antepassados que são os
nossos.
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