segunda-feira, 27 de abril de 2026

O saber e a verdade

 


O saber na psicanálise: escrita e formalização do caso clínico”

 o saber e a verdade

Qual saber a psicanálise oferece ao sujeito para que possa desvendar o sofrimento do sintoma e aceder a um novo modo de suportar a existênciadiversamente daneuroseFreud se dedicou a elaborar os princípios e aelucidação, através da palavrana associação livreda experimentação desse saber. Um saber que deve ser degustado, pois não se refere a uma abstração, uma vez que o analisante no começo da análise não sabe o que diz e se surpreende ao se escutar no divã.

Freud nos apresentou um novo sujeito – o sujeito do inconsciente - a subjetividade que desbancou o eu de sua supremacia. Ele respeitou a fala de seus pacientes ao escutar a verdade desconhecida do eu, mas própria do sujeito do inconsciente. Ele foi aquele que deixou, sob o nome de inconsciente, que a verdade falasse. Em “Análise terminável e interminável” (1937/2011) ele recomenda, inclusive, que a relação analítica fosse fundada no amor à verdade.

A verdade que interessa a Freud é a verdade sobre a posição do sujeito em relação ao gozo, porque quando a psicanálise convoca alguém para falar “toda a verdade” de seus sintomas, segredos, sonhos e fantasias, é como dirigir-se ao desconhecido e com a emergência da angústia. O dispositivo freudiano coloca o sujeito diante dessa prova da angústia, sob transferência, para que tenha acesso ao desejo. A operação transferencial, colocação em ato da realidade do inconsciente e mola mestra do processo, orienta o caminho até a verdade, o acesso ao saber inconsciente e a regulação da relação do sujeito com a falta, sem tentar encobri-la, mas para que a experiência possa transformá-la.

Lacan ( 1972-1973/1985, p. 123) problematiza ocaminho da decifração freudiana a leitura do saberinconsciente: “Quanto à análise, se ela se coloca por uma presunção, é mesmo por esta, que se possa constituir, por sua experiência, um saber sobre a verdade.” Ainda que seja pouca a verdade a ser alcançada e por vias torcidas, ela é indispensável, diz ele

No entanto, a estrutura da verdade indica que o gozo do ser falante se revela como uma objeção, uma falha no programa do princípio do prazer. Contar sua história,localizando as conjecturas sobre o passado e atribuindo a elas sentido, por si só, não se mostrou suficiente para que a verdade inconsciente se revelasse ao sujeito. Oesquecido que é veiculado nos sintomas, chistes, atos falhos e sonhos, mesmo traduzindo a verdade do mais-de-gozar, não pode ser totalmente apreendido, pois a rememoração simbólica não toca o real pulsional. Freud tropeça nessas manifestações residuais, resto de libido em meio ao conjunto de significantes. O que quer dizer que a libido não se deixa decifrar inteiramente, pois há fixação e a dificuldade em dizer tudo da regra da associação livre esbarra na permanência do sintoma, que mesmo depois de ser interpretado, permanece. Daí o pessimismo de Freud quanto à elucidação simbólica dos nós significantes que liberariam o sujeito do sintoma. Se a rememoração simbólica lida com metáfora e metonímia, portando movimento e fluidez, a manifestação residual é fixação, inamovível.

Se o programa edípico que foi oferecido como solução do enigma fracassa, Lacan propõe ir além do sentido, naquilo que escapa e ultrapassa tudo que é da ordem do significante, operando nas vias de acesso da verdade e os efeitos enigmáticos do gozo. A análise, portanto, deve apreender as razões desse fracasso, verificação dessa impossibilidade num trajeto lógico para alcançar algo do real. E não existe outra via, senão da própria análise para elaborar a relação como os elementos rastreáveis do infantil que retornam. 

No Avesso da psicanálise, Lacan (1969-70/1992)articula sua teoria dos discursos – uma máquina de transformação do gozoTomar a psicanálise pelo avesso implicaria, então, ultrapassar a prática freudiana ancorada no campo da significação fálica estabelecido pela castração e o Édipo para constituir os discursos como escrituras, transformando esses operadores em discursos, suplantando assim a centralidade topológica do pai. 

Descolonizar o Real habitado pelo pai simbólico exige a formalização de outro tratamento a ser dado ao Real, mas desta feita considerando a impossibilidade da significação e do sentido, revelado no dizer "não há relação sexual". Dito de outro modo, Lacan vai situar o discurso como uma estrutura que ultrapassa a palavra e as relações de significação, porque estas estão diretamente atreladas à falta de significante no Outro S(A/) e coloca os discursos como girando em torno da impossibilidade de tudo saber, de tudo gozar.

O sujeito se inscreve no Outro pela perda e, desse modo, submete-se à entrada na cadeia significante. No entanto, o significante que decidiria sua relação com a verdade está perdido e ele não consegue apreender o que é no desejo do Outro, pois é da ordem de uma incógnita, um enigma. Por conta disso, uma análise visa a produção de um desejo próprio do sujeito, para que ele não seja capturado na posição de objeto do Outro, dito de outra maneira: um desejo que não se sustente mais na fantasia, que lhe fornecia o enquadre da realidade. 

Desse modo, a invenção da psicanálise realoca a questão do saber, pois diferentemente da religião ou da ciência, afiança que há saber que não se sabe (unbewusste). O saber articulado, que vai de um significante a outro, engendra necessariamente uma falta-a-saber, mantendo o sujeito em uma busca constante de complemento de saber. Trata-se de um saber que foi arquitetado pelo sujeito na fantasia em uma configuração de como interpretou o encontro com o gozo do Outro, dando consistência a essa dimensão do Outro em sua vida. 

A análise lacaniana implica em pressionar os significantes para extrair um saber do que foi cifrado pelo gozo em memórias de infância, contingências do encontro com a falta do Outro e nos mitos e lendas inventados na história de um sujeito. O analista deve corrigir essa operação neurótica – onde a fantasia fixa um sentido - para acercar-se do saber não sabido. E Lacan sugere, além da escuta, que o analista deveria ensinar o sujeito a ler o inconsciente (LACAN, 1971/2009).

O analista está assentado para fazer supor um saber enquanto verdade na fala de seu paciente. Mas, se Lacan pôde ir além do amor à verdade, é que propôs ainterpretação, como um saber no lugar da verdade, sabendo que esta tem uma estrutura de ficção, já que se faz a partir da estrutura da linguagem. A ética da psicanálise se funda numa relação que não é do conhecimento, mas do que ressoa nas palavras do real para separar o sujeito do Outro. A consequência lógica dessa ética é a invenção de um novo saber, não mais aquele disposto pelo Outro, mas um novo desfecho ao que lhe foi apreendido como destino.

Diríamos que um dos principais efeitos do deslocamento do campo da significação ao campo do não-sentido foi uma nova concepção lacaniana do saber, não mais entendido como uma articulação significante, mas como um modo de encaminhamento da satisfação pulsional, portanto diretamente atrelado à repetição e assimilado como um aparelho de grafia do gozo. 

O sujeito que padecia dos efeitos do saber inconsciente sem sabê-lo, e que esperava reduzi-los, sabe agora do irredutível do saber no real, pelo que se vê afetado, e percebe o que isso implica de incurável. Com essa posição ética em relação à verdade, é possível no percurso analíticoobter um tanto de saber que pode ter um impacto sobre o real do sintoma. 

Lacan (1972-1973/1985) compara o trabalho da análise ao trabalho da aranha, pois tal como ela, que faz brotar a teia de um ponto opaco desse ser – que mostra o real acedendo ao simbólico - o sujeito segue em uma análise tecendo suas redes significantes, mas conservando as pegadas do ponto obscuro que é a relação com o gozo, marca da singularidade que indica como cada um se desenrola com a impossibilidade estrutural. Essa arquitetura enuncia o que Lacan indica como leitura do inconsciente: as infinitas voltas na teia para extrair os elementos reduzidos ao mínimo. Destituição dos significantes mestres a partir da posição que o analista ocupa na operação analítica como objeto a causa de desejodo sujeito, permitindo construir um saber no lugar da verdade, emancipando-se do efeito alienante dos S1s.Cada analisante diz das condições fantasmáticas que o conduziram até então, para recolher, no marco analítico um saber com o qual orientar-se e viver melhor. 

Essa é a distinção da análise e das psicoterapias, porque uma psicanálise aposta na redução do sentido, através do guia estrutural da falha no saber, levando o sujeito a uma nova posição frente ao saber. Nos testemunhos de passe podemos encontrar e nomear o ponto obscuro de onde o sujeito tece sua teia, a relação com o gozo. As palavras são capazes de dar borda ao impossível estrutural do S(A/) mesmo trabalhando com a verdade semi-dita e o saber que resta da articulação significante.

O saber adquirido numa análise, se estamos na clínica do real, fornece ao sujeito um modo de lidar com a amarração da triplicidade lacaniana – real, simbólico e imaginário – deslocando-o do seu gozo e franqueando a castração, numa maneira inédita de estar no laço social sem aderir ao discurso do Outro.

Bibliografia

FREUD. Análise terminável e interminável. In: FREUD, S. Freud (1937-1939) - Obras completas volume 19:Moisés e o monoteísmo, Compêndio de psicanálise e outros textos. São Paulo: Cia das Letras, 1937/2011., p. 13-113.

LACAN, J. O Seminário, Livro 17, O avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, (1969-70/1992.

LACAN, J. O seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semelhante. Rio de Janeiro: Zahar, 1971/2009.

LACAN, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1972-1973/1985.

O cartel na Escola de Lacan

 O cartel, uma estrutura borromeana com um saber a bordar

Alba Abreu

 

A invenção

Em 1964, no Ato de Fundação que cria a Escola Freudiana de Paris, Lacan estabelece suas coordenadas e coloca a estrutura do cartel, órgão de base de uma Escola, como o artifício para um trabalho que intersecciona intensão e extensão:

• Para execução do trabalho, adotaremos o princípio de uma elaboração apoiada num pequeno grupo. Cada um deles (temos um nome para designar esses grupos) se comporá de no mínimo três pessoas e no máximo cinco, sendo quatro a justa medida. 
• MAIS UM encarregado da seleção, da discussão e do destino a ser reservado ao trabalho de cada um. 

A transferência de trabalho no Cartel busca a inclusão do particular – um produto de cada um - como atributo responsável pelo desejo de saber, ou seja, cada cartelizante participa por sua condição desejante. Em 1980, no texto D´Écolage, encontra-se explícita a questão do produto, que não se confunde com a produção nem mesmo com o trabalho. Ele diz: “Quatro se escolhem para prosseguirem um trabalho que deve ter um produto. Dou a precisão: produto próprio de cada um, e não coletivo”. Produção, no coletivo e produto, saber de cada um. Se por vezes consideramos que produto e produção são muitas vezes usados como sinônimos, parece-me que neste contexto é importante diferenciá-los, lembrando que o produto é o resultado de um tempo de trabalho no cartel(Sandra Berta, o produto do cartel)

Um grupo de estudos é confortável, mas esta suscetível ao mal-estar por conta do imaginário do grupo e sua dimensão do gozo, de cola e dificuldade de dissolução. Como tal, inibe a produção do saber de cada um por se estruturar na maioria das vezes em torno de um líder, de suas referências e busca de uma verdade.

A lógica que rege o cartel é a falta de um saber acabado, concluído e totalizador, que vai permitir a elaboração pessoal e o vínculo particular de cada membro do cartel com a Escola, sustentado no desejo de saber e na relação com a causa analítica. Porém há sempre umaprecariedade no cartel:

• As reuniões não estão marcadas por uma centralidade absoluta em uma doutrina ou ideologia. 
• Nem em uma estruturação rígida quanto ao número, duração ou frequência das reuniões. 
• Inclusive seu tempo é limitado, máximo de dois anos, onde a dissolução e a permutação são fundamentais.

O cartel como dispositivo de transmissão é proposto por Lacan como "órgão de base" do funcionamento de sua Escola. Trata-se de uma estruturação coletiva que se organiza para além dos efeitos de 'grupo' descritos por Freud em Psicologia de grupo e análise do eu: para que um número x de indivíduos se reúna faz-se necessário um elo comum, o líder, e o reconhecimento que destina aos outros, o que conecta os membros entre si.

A identificação com o líder é o que move o mecanismo de toda e qualquer formação grupal. Freud advertia que os laços que se estabelecem em grupos como exército, igreja, instituições e movimentos de massa possuem um tipo de identificação com o líder que se caracteriza por situar o objeto no lugar do ideal do eu, causando assim um traço permeável a cada um dos membros. Nesse tipo de identificação simbólica, estariam também o amor, a paixão e a hipnose, onde impera a supervalorização do objeto amado.

O cartel, tal como Lacan inventou, se tornou a principal ferramenta da apreensão da psicanálise e sua transmissão. A multiplicação dos carteis articula a “psicanálise em intensão” com a “psicanálise em extensão”. A primeira refere-se à própria experiência entre o analista e o analisando, artifício primordial na formação de um analista. A psicanálise em extensão trata da articulação entre a lida cotidiana com a psicanálise e o saber que esta dispõe; um exercício de transmissão e revisão da herança freudiana a partir de Jacques Lacan ( Jimenez, 1994, p. 12).

HISTÓRICO

Em “A psiquiatria inglesa e a guerra” (Outros escritos, 1947). Lacan conta a sua simpatia pelo trabalho de grupo executado na Inglaterra durante a segunda guerra mundial por dois psiquiatras ingleses: Bion e Rickman. Os grupos terapêuticos se formaram a partir do impasse que a guerra impunha:

• De um lado havia a necessidade de um grande contingente de soldados que pudessem lutar pela Inglaterra; 
• e do outro lado centenas de soldados que por problemas os mais variados possíveis se encontravam impossibilitados de ir à fronte. 

Pela ordem das circunstâncias e a dificuldade de tratar de 400 soldados individualmente, Bion e Rickman lançaram mão do artifício do grupo. O que a diferenciava da massa freudiana era a extinção da identificação verticalizada imposta pela figura do líder. Ao invés de se respaldar na figura de um ideal como agente aglutinador, Bion apostou na identificação horizontal. Na tarefa a ser realizada pelo grupo admitiam-se as especificidades de cada um, seu próprio modo de lidar com a realização do trabalho e com os outros; e ainda assim, cabia o não-querer-fazer. As regras que regiam os conjuntos de soldados eram permeadas pela descompletude, atribuição em princípio, contrária ao grupo que se pretende universal.

 

Regras:

1)Todos os homens devem fazer uma hora de exercício físico por dia, salvo se apresentarem um certificado médico;

2) Todos os homens a uma ou a várias das seguintes atividades: trabalhos manuais, cursos de correspondência organizados pelo exército; marcenaria; cartografia; construção de maquetes etc.;

3) É permitido a cada homem formar um novo grupo, seja porque não existe ainda o tipo de atividade que ele deseja, seja porque, por uma razão qualquer, é impossível para ele aderir a um dos grupos já existentes;

4) Todo homem que não se sinta em condições de assistir as reuniões de seu grupo deve se dirigir a sala de repouso. 

A regra que se encontra subtendida a todas as demais é a negociação: acordo que se estabelece entre aquilo que está instituído e aqueles que estão institucionalizados. Enquanto as normas elaboradas por Bion, previram a condição do Outro barrado, na massa freudiana há o comando do Outro, seu imperativo e sua presença abrange o lugar de todos, e a relação entre os membros do grupo só acontece via líder; se este é destituído o grupo se desfaz. 

Laurent: Um grupo que por essas razões, se opõe por princípio à homogeneidade da massa porque não se sustenta no olhar absoluto do Ideal, nem da igualdade imaginária que deriva da identificação àquele Ideal, mas em um laço social reduzido ao trabalho, à realização do objetivo comum.  

Essas premissas do grupo de Bion é a lógica do dispositivo do Cartel em que a tarefa induz cada sujeito a obter um produto singular. Essa logica é trazida por Lacan para o cartel.

MAIS UM

Se no grupo freudiano há um líder que enlaça o coletivo, no cartel lacaniano, o Mais-Um é um líder enfraquecido. Sua base é a inexistência da relação, um furo que provoca a enunciação e que a força a partir desse furo, conduz a uma relação, às vezes, inédita com um saber. O lugar do Mais-Um é um lugar fundamental para fazer um laço que dê como resultado o trabalho no cartel e do qual possa se obter um produto, de preferência escrito, mas não só. O laço faz referência a um lugar, que possibilite o enlaçamento entre os elementos.

Ainda no seminário RSI Lacan introduz o nó borromeano de quatro elementos. Nesta figura o quarto aro é fundamental para o enodamento, sendo suplementar à trilogia. Lacan lança aí uma ideia de disjunção fundamental dos três registros. Será esse último aro responsável por manter a cadeia unida. Uma vez solto todos os outros se desacorrentaram, um de cada vez, até o primeiro. O último aro acrescentado é responsável por manter os outros unidos. Inicialmente Lacan define o quarto aro como Nome-do-Pai no que este possui a função de nomear as coisas amarrando e dando consistência aos registros. O (+1) no nó borromeano garante que RSI estejam unidos num arranjo em que nenhum deles se encontre numa amarração privilegiada.  Tal como a figura ilustra o mais-um seria este quarto aro responsável pela amarração dos registros, porém imprescindível como qualquer um dos outros para a configuração do nó.

 

 

A LÓGICA DO CARTEL

Como falar da garantia se são elos soltos, cada um com seu trabalho; aceita o fracasso e a dissolução como maneira de fazer? Um dispositivo-resistencia à burocratização das sociedades psicanalíticas

Efeitos de transmissão: produção e nova posição frente à Escola:

“O cartel cria um espaço de intimidade necessário ao desdobramento das questões da pesquisa própria; mas para que isso seja possível, precisa-se da confiança: a confiança mútua de que aquilo que se disser ali será escutado com respeito por mais insipiente e pouco articulado que possa parecer; a confiança de que a resposta do outro não se baseia em má fé, mas no desígnio de fazer avançar; a confiança para tratar das possíveis crises ou destemperos que em um dado momento algum dos componentes possa manifestar; a confiança de que esse real que dá a cada um sua forma, seu estilo e seu selo peculiares, com suas virtudes e defeitos, vai poder ser suportado pela estrutura desse pequeno grupo; a confiança de que aquilo que se capta da cada integrante, para lá de seus ditos, em sua vertente mais pulsional e desencarnada, não será utilizado para minar o ser de alguém na comunidade local nem fora dela. Um cartel não pode sustentar-se sem que a tão invocada ética da psicanálise se encarne em seus componentes. O cartel, quando funciona, tece entre seus membros laços de trabalho e de saber subversivos que nada têm a ver com o discurso do senhor ou universitário; quando funciona, um cartel sustenta o que cada integrante tem para dizer..., que ainda não foi dito; no cartel, às vezes, se escuta o dizer de cada um, o que constitui uma experiência francamente incomum. O cartel atualiza o desejo de manter viva a psicanálise, único motivo pelo qual uma Escola é necessária. Se a Escola dos Fóruns quiser que o Passe tenha alguma chance, então seus membros precisarão tecer a estrutura que o sustente, que outra não é senão os cartéis. Blanca Sánchez Gimeno wunsch 6)

 


Sessão clínica

  Sessão clínica - FCL Aracaju 2026

Escrita e transmissão do caso clínico em psicanálise

Coordenação: Alba Abreu

Objetivos:

• Reflexão sobre o estatuto do caso clínico na psicanálise, tomando-o como operador de transmissão da experiência analítica;
• Discussão acerca do que o caso clínico ensina sobre a psicanálise, a partir da singularidade do sujeito e de seus efeitos na prática e na ética psicanalíticas. 
• Construção do caso para além da narrativa biográfica, com ênfase na lógica do caso, na localização dos significantes mestres, da fantasia e das modalidades de gozo. 
• Análise e debate sobre as intervenções clínicas como expressões vivas da experiência psicanalítica

Ementa: 

A clínica do caso parte do fato de que ela põe em xeque todo saber pré-existente. Constata-se ainda que a clínica do caso é outra coisa que a clínica da estrutura. Ela não a exclui, mas vai além. 

A clínica da estrutura visa distinguir, nas manifestações do inconsciente, o que pertence a uma estrutura clínica ou a outra. A clínica do caso visa a singularidade. 

A clínica do particular designa o elemento comum em um conjunto. O caso é a passagem do particular para o singular. Todo mundo tem um sintoma, mas cada um sofre dele à sua maneira. O sintoma é particular no sentido de que se conecta a uma estrutura clínica. A singularidade é outra coisa. Ela é determinada pelas marcas de gozo infantil; elas estão sempre fora da norma. E a análise é o que programa um saber-fazer com essa exceção.

Nesse sentido, em uma psicanálise passa-se de uma singularidade mascarada pelas identificações do sujeito a uma singularidade revelada. Quanto à fantasia, é como cada um responde ao desejo do Outro. Nesse sentido, a fantasia pertence ao particular. É o que funciona como suporte do sujeito. É o particular de um desejo em sua relação com o universal. A questão é a do uso do particular e do singular na experiência de uma análise e qual é a tradução natransmissão pelos analistas. 

Notemos desde já que, nos comentários dos casos apresentados nas estruturas de ensino, o particular concerne à clínica do sujeito. Ela consiste em captar os significantes de que um sujeito se serve para se fazer representar e assim situar-se em sua existência. É verdade que, para capturar esses significantes, é preciso passar pela maneira como o sujeito ordena os significantes de sua história. Isso levanta um risco: o de não cair, na transmissão de um caso, no romance familiar. 

O caso em psicanálise não é a história do sujeito completada pela história das gerações precedentes. O romance funda-se no mito. É outra coisa fazer emergir o que um sujeito tem de mais real.

sábado, 4 de dezembro de 2021

PANDEMIA E PSICANALISE        30/5/2020

A imperfeição necessária do analista

  ALBA ABREU LIMA

“o ser humano sabe fazer dos obstáculos novos caminhos, porque à vida basta o espaço de uma fresta para renascer” Sábato

Estamos diante de um evento que marca uma descontinuidade e que nos causa estupor e pânico. Colete Soler, em Adventos do real: da angústia ao sintoma,aborda a questão da angustia nas diferentes conjunturas onde ela pode aparecer. Coloca uma dissimetria entre dois termos que podemos tomar para analisar o momento que vivemos:

• A fobia, que ela põe no singular por fazer referência a um sintoma que organiza o campo libidinal de um sujeito particular. A fobia enquanto sintoma seria então uma noção analítica, diagnosticada e estudada na psicanálise. Seria o sintoma que se faz inevitável na primeira infância, uma "placa giratória", segundo Lacan. Nesse sentido já é em si um tratamento da angustia.
• Os pânicos, ao contrário, são no plural porque o pânico obedece a uma temporalidade de eventos incompreendidos que dividem o sujeito ou um grupo. No nível coletivo, a causa dos pânicos é sempre da ordem do acidente, no louco desaparecimento do chefe, dizia Freud. O pânico desarranja, desregula um funcionamento previamente ordenado. O termo vem do Deus Pan que aterroriza e atemoriza os espíritos. Ele é sinônimo de pavor extremo e desorganizador.

De repente fomos todos tomados pelo pânico de um vírus mortal, que se espalha muito rapidamente pelos continentes sem que tenhamos recursos discursivos paraapreende-loTodas as nossas acomodações de lugar, tempo, hábitos e pontos de referências pessoais foram suspensas e o horror do imprevisto assolou e nos distanciou das coordenadas simbólicas e cada um respondeu de sua maneira particular ao acontecimento mundial.

Experimentamos todos, de um dia para outro, acordar para algo que não conhecíamosforçados a viver no isolamento dos corpos, afetados pelo desamparo não somente do vírus, mas fazendo emergir as desigualdades econômicas e sociais como uma avalanche, principalmente no Brasil.

O medo do real da natureza que já vinha se exibindoem nossa época, seja pela falta de cuidado com o planeta, ou no aparecimento de novas doenças, impondocatástrofes vividas ou anunciadas. O falantediz Lacan, costuma dar às doença ou os acidentes da vida um sentido, seja aquele da punição ou da perseguição por um Outro obscuro. Dessa vez um Outro invisível e abstrato surgiu no horizonte para nos lembrar da nossa condição de mortais.

Freud advertia, em O futuro de uma ilusão que é porque, no inconsciente, o destino, o acaso e, especificamente, a má sorte representam a instância parental, a necessidade de uma crença estaria ligada à busca do homem de se relacionar com o pai, sendo assim, um sentimento de proteção ao desamparo infantil. Ao que Lacan chama de Outro. Por isso, o que surge ao sujeito como má-sorte não concebe somente a culpa, provocatambém acusações paranóides e por vezes posturas de vítima. Em todos os casos o Outro é sempre convocado a dar sentido ao indecidivel.

Sabemos, com a psicanálise que a angústia que não é sem Outro, ela responde ao desconhecido que é o desejo e o gozo do Outro na medida em que o sujeito se coloca como objeto. Lacan explica em A terceira que o real é o que nos desacomoda de nosso cotidiano e que nos adverte de nossa finitude, mas o analista está ai concernido:

“O instigante de tudo isso é que seja do real de que depende o analista nos anos que virão e não o contrário. Não é de forma alguma do analista que depende o advento do real. O analista tem por missão detê-lo. Apesar de tudo, o real poderia muito bem desembestar, sobretudo desde que tenha o apoio do discurso cientifico

Estamos diante do insensato, incalculável e a morte, que já estava quase esquecida nos últimos tempos (com negação da morte, do culto ao individualismo e da recusa ao envelhecimento) agora retorna dessa maneira trágica.Na condição de psicanalistas precisamos articular e tentar cernir esse impossível com nosso desejo.

Acreditamos com Freud, a partir de "Inibição sintoma e angústia" que as situações de perigo são sempre aquelas face ao que o indivíduo está ou esteve sem recursos. O recurso mais primário, fuga quando se trata de um perigo exterior. O perigo interno, de uma excitação pulsional ou de desejos que não encontram maneira de fugir, não podem se satisfazer sem provocar retaliações inevitáveis na realidade as quais não se poderá evitar. Lacan traduz com a banda de moebius esse dentro/fora para falar desse traumático do sujeito.

A perspectiva da psicanálise é de que o sujeito exerça sua singularidade, reconheça a alteridade na qual se constituiu, porém sem o curto-circuito da dor de existir, mas oferecendo condições para que possa se questionar a angustia e passar ao registro do desejo. Do insensato a uma amarração moebiana, com palavras e ressonando a fantasia, que é o que o sujeito tem de mais singular.

Lacan apregoa que o sujeito é sempre responsável, mesmo que dependa do modo de relação com o Outro, ainda assim ele elege sua posição de resposta. O sujeito nessa pandemia se vê impossibilitado na resposta ao sofrimento e a política do analista é de sustentar a presença. A função de poder fazer semblante de objeto a, foi se acomodando ao online na voz e em alguns casos também no olhar atravessado pela tela do computador, para:

• sustentar a transferência nesse momentotempo de uma espera;
• Proporcionar ao analisante um espaço para que possa produzir um saber sem se deixar capturar pelo discurso culpabilizador da religião ou dos supostos donos das verdades medicas que nada mais fazem do que reproduzir o discurso capitalista;
• Tentar sustentar o ato analítico, no manejoartesanal da transferência para produzir uma subversão que implique na presença do Outro como barrado.

Enfim, trabalhar para que possamos ressoar com a interpretação atravessando o dispositivo online, algo do gozo de cada um e como cada analisante pode ser amparado em sua angustia.

Em Subversão do sujeito, Lacan fala da imperfeição necessária do analista e sua ignorância renovada a cada caso como uma questão para o desejo do analista. Por isso, a psicanálise é uma experiência subversiva que conduz o analisante a interrogar o saber universal para conquistar um saber particular.  

Referências bibliográficas:

LACAN, J. (1960). O triunfo da religião: precedido de Discurso aos católicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

1974 Conferencia A terceira. Cadernos Lacan. Porto Alegre: APPOA, 2002. Vol 2

Os Escritos RJ: Jorge Zahar, 1998

Freud, S. (1976). Inibições, sintomas e ansiedade. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 20). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1926)       

Freud, S. (1996). O futuro de uma ilusão. Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XXI, pp. 15-64). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1921)

Freud, S. (1996). Psicologia de grupo e análise do ego. Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XVIII, pp. 77-146). Rio de Janeiro: Imago.

Sabato, Ernesto A resistência. SP: Companhia das Letras, 2008

Soler, ColetteAdventos do real: da angústia ao sintoma. SP: Editora Aller, 2018

por Colette Soler (Autor), Elizabeth Saporiti (Tradutor)